domingo, 17 de janeiro de 2021

Cultura
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Filmes independentes ganham holofotes

Audaci Junior / 03 de março de 2017
Foto: Divulgação
Depois do papelão que entrou para aos anais do Oscar, quando entregaram o envelope errado de Melhor Filme e, após um desfile de discursos dos produtores de La La Land, os holofotes – ou seriam “spotlights”? – foram jogados para Moonlight – Sob a Luz do Luar, filme ainda em cartaz nos cinemas da Paraíba.

Não que o longa-metragem não estivesse nos braços da crítica especializada e de uma boa parte do público mais antenado com o movimento independente (cada vez mais crescente, vide os indicados deste ano).

Moonlight, forçando uma analogia de “Davi contra Golias”, é realmente um grande pequeno filme nesse universo cada vez mais em expansão (a produção é de modestos US$ 5 milhões). E as estatuetas douradas vêm para popularizar isso, mesmo que deixe a produção exposta para o maldizer das pessoas que não são tão “cinéfilas” assim.

Bem como Spotlight – Segredos Revelados no ano passado, que ganhou como Roteiro Original e deu uma merecida reviravolta na categoria principal, o filme do desconhecido Barry Jenkins (também roteirista, baseado em uma peça inédita) se alicerça nos diálogos sólidos sobre a realidade de uma comunidade pobre de Miami, Estados Unidos. Aqui mal têm palmeiras imperiais, muito menos os pântanos cheios de alligators que povoam o subconsciente popular.

Em três atos, o filme se concentra nas fases da vida de uma criança negra chamada Shiron (vivido pelo expressivo Alex Hibbert em primeiro momento), apelidada como “Pequeno” e que sofre bullying dos colegas de escola. Numa dessas escapadas de ser machucado fisicamente, ele se aproxima de um traficante local (Mahershala Ali, vencedor do Oscar de Coadjuvante, num desempenho breve, mas preciso).

Numa das cenas-chaves do longa, com base em questionamentos do garoto antissocial, é de cortar o coração. Com uma excelente fotografia nervosa, com uso e abuso de desfoques em segundo plano e banhada de azul (blue, a “cor da tristeza”), o filme vai se costurando sem cair no didatismo sobre a sexualidade ou no drama fácil ou ainda nos clichês (apesar de esbarrar acerca do bullying).

Quando Chiron se torna adolescente (na pele do ator Ashton Sanders), a atuação de Naomie Harris (a Miss Moneypenny de Skyfall e 007 contra Spectre) sobressai e cresce na narrativa.

Quando vemos o que se tornou o protagonista (agora na atuação de Trevante Rhodes) no derradeiro ato, a solidão é acentuada na voz de Caetano Veloso, quando ele escuta no som do carro o brasileiro cantar a melancólica “Cucurrucucu Paloma”.

Derrubando preconceitos sem militâncias, Moonlight é sobre a solidão e do seu papel individual no mundo quando você se sente deslocado na pequenez em relação ao mundo (alguém se lembrou do apelido malicioso que os outros meninos colocaram no Chiron?).

Nesse pensamento, fica mais destacado outra música no som automotivo, quando o personagem de Mahershala Ali “abre” o filme: "Every nigger is a star" (“Cada crioulo é uma estrela”, em tradução livre), de Boris Gardiner.

Apesar de ter um termo pejorativo, o contexto vai além e ganha voz sobre valorizar as pessoas, reforçando-se com o coro do Oscar.

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