domingo, 15 de setembro de 2019
Exposição
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‘Bálsamo kakejiku’ discute presença de tecnologia nas artes visuais

André Luiz Maia / 05 de junho de 2019
Foto: ACERVO PESSOAL
Dizer que a tecnologia está presente em praticamente todos os âmbitos da vida cotidiana é um clichê, mas clichês existem geralmente porque são verdadeiros. Nas artes, os dispositivos eletrônicos e digitais são ferramentas importantes para o desenvolvimento de estéticas de vanguarda, especialmente nas artes visuais. Com o intuito de instigar essa discussão, surge Bálsamo Kakejiku, uma exposição promovida pelos artistas Sarabades e Thiago Trapo.

Pichação, arte japonesa, glitch e traços gerados por dispositivos digitais se unem em uma mistura aparentemente inusitada. O artista Daniel Sorrentino, cujo nome artístico é Sarabades, desenvolve uma pesquisa no seu mestrado relacionado à estética do erro no meio digital dentro do Programa de Pós-Graduação em Computação, Comunicação e Artes, da UFPB.

“As camadas que foram usadas para criação de Bálsamo alternam entre elementos computacionais e analógicos e, como utilizei de arte generativa e de glitch art para compor etapas da obra, essa é basicamente uma obra feita por três entidades: a maquina, eu e Trapo, cada um contribuindo com suas limitações e capacidades”, define Sarabades.

Para o artista visual Thiago Trapo, esse trabalho, atrelado à discussão proposta na abertura da exposição, servem para discutir essa relação entre arte e tecnologia, a começar por levar a arte visual para espaços menos ortodoxos como uma galeria de arte, no caso, o 283 Café. “Há um receio e até certa hostilidade no cenário local acerca da arte digital”, avalia.

Há 12 anos no mercado, Trapo, em seu trabalho que mescla a estética urbana do pixo, do lambe-lambe e da arte digital, já tinha em sua essência artística a intenção de eliminar fronteiras entre linguagens “orgânicas” e “digitais”, então Bálsamo Kakejiku é apenas um desdobramento desse caminho já trilhado pelo artista.

“Acredito, particularmente, que a ferramenta não pré-define a qualidade de qualquer obra que seja e que, sim, cada época tende a se utilizar de materiais e ferramentas que estão ao seu alcance buscando o melhor diálogo com o contexto em que está inserida. Vejo a digitalização da arte, vamos colocar desse modo, como um dinamismo positivo e inevitável no contexto do humano contemporâneo”, pontua Trapo, ressaltando que esse movimento na arte é mero reflexo das relações cotidianas em geral, mediadas por meios digitais. “Esses aplicativos e plataformas constroem e transformam nossos conceitos estéticos, sociais e filosóficos, inclusive políticos”, completa.

As obras, caracterizadas pela profusão de cores, são apresentadas como se fossem kakejiku (do japonês, rolo suspenso), estética clássica de arte nipônica. Esta opção, como se fosse uma espécie de “embalsamamento” de uma arte digital em um formato físico tradicional, serve para ressaltar o caráter filosófico do trabalho. De certa maneira, a referência ao Oriente dentro da proposta artística desemboca em uma discussão filosófica sobre o futuro (ou seria presente?) da humanidade.

“Nós sempre discutimos sobre a máquina como um possível organismo ‘orgânico’ do futuro, discutimos o tempo inteiro sobre robôs e subjetividade, a subjetividade da máquina, sobre o cyberespaço lançando um olhar do zen budismo, criando analogias, sempre confluindo tradicionalismo e futurismo... Nesse contexto, chegar ao Japão enquanto referência cultural seria e sempre será inevitável. Tenho fascínio pela concomitância entre costumes tradicionais e avanços tecnológicos que eles praticam. A noção de que um meio não elimina o outro, são apenas desdobramentos do mesmo processo”, filosofa Thiago.

O hibridismo da arte proposta pela dupla transcende (mas também perpassa) a arte visual e propõe, então, uma discussão sobre real e virtual, analógico e digital, questões bastante atuais e intrigantes.

 

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