domingo, 13 de junho de 2021

Cultura
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Escritoras do Encontro das Autoras Paraibanas falam sobre conquistas

André Luiz Maia / 08 de março de 2018
Foto: Divulgação
“Literatura feminina”? Maria Valéria Rezende rebate essa depreciação: “Se disser que existe uma literatura masculina, tudo bem”.

A premiada escritora é a homenageada no 3º Encontro Literário das Autoras Paraibanas, que acontecerá nesta quinta-feira, Dia Internacional da Mulher, a partir das 17h30, na Livraria do Luiz, em João Pessoa.

Além de Maria Valéria, o evento conta com as participações de nomes como Ângela Bezerra de Castro, Marinalva Freire, Mercedes Cavalcanti e Clarrissa Yemisi, essa última com a apresentação de uma performance literária. A promoção é da própria livraria em parceria com a confraria Sol das Letras.

Na linha de frente do movimento Mulherio das Letras, cujo primeiro encontro nacional aconteceu no ano passado, na capital paraibana, Maria Valéria Rezende participará também nessa semana do festival literário Letra de Mulher, em Salvador (BA). Lá, ela responderá na palestra “O que faz uma escritora?”.

“Ler o máximo que puder”, adianta a sua resposta prontamente. “Não sei o que fazem as outras escritoras, mas tenho a impressão que algumas não leem. Suponho que a verdadeira lê mais do que escreve. Não só ler os livros, mas ler também o mundo à sua volta, compreender o que está nas entrelinhas e escrever o que dá conta nesse mundo, colecionando impressões e o que entrar pelos cinco sentidos, colecionando dúvidas também para poder dividir com os outros”.

Acerca da questão do empoderamento feminino, a escritora Ângela Bezerra de Castro – imortal da Academia Paraibana de Letras – acha o termo antipático. “Sou mais feminista que as feministas, eu não estabeleço homem como parâmetro”, coloca. “Não fico fazendo essa comparação se a mulher é melhor que o homem. Para mim, literatura não tem sexo. O que se deve ter é uma conscientização. É isso que liberta”, analisa.

O preconceito contra a mulher – seja ele no meio intelectual dos autores, seja ele comercial nas prateleiras – ainda existe atualmente. “Se você for a qualquer uma das grandes cadeias de livrarias, elas são verdadeiros supermercados de certos tipos de produção”, explica Maria Valéria. “O livro é visto como uma mercadoria, mercantilizado, não é visto como um compromisso cultural. Isso voe vê mais nas pequenas livrarias e em sebos”.

Laureada com o Jabuti e o Prêmio São Paulo de Literatura, ela conta que a política geral entre as editoras é separada entre os livros “para vender” como mercadoria e os livros “para catálogo”, no qual se encaixam os autores que têm chances de irem para alguma premiação. Maria Valéria frisa que nas lojas grandes são encontradas muitas biografias de mulheres e autoras estrangeiras que trazem uma tarja nas capas de “um milhão de exemplares vendidos”. As escritoras brasileiras são colocadas de escanteio.

Para Mercedes Cavalcanti, também convidada do evento, o preconceito é percebido com clareza, visto o número de romancistas e poetas predominantemente masculinos no meio. “A mulher foi ‘aleijada’ na cultura. Hoje em dia estamos numa época propícia para iguais condições. Temos ferramentas como a internet ao nosso favor. Uma mulher iraniana que é subjugada no seu país pode ter um blog para ganhar voz”, exemplifica.

No meio intelectual, Maria Valéria conta que basta lembrar que a mudança no estatuto da Academia Brasileira de Letras em aceitar autoras se deu apenas em 1974. “Hoje está se descobrindo escritoras esquecidas, que publicavam com pseudônimo masculino ou como ‘autor anônimo’ com medo de represálias”.

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