terça, 25 de junho de 2019
Cultura
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Maurício de Sousa faz revelações sobre criações e vida pessoal

Renato Félix / 03 de setembro de 2017
Foto: Divulgação
Mauricio – A História que Não Está no Gibi, a autobiografia de Mauricio de Sousa, traz um subtítulo interessante. Porque, na prática, um pedaço dessa história está em gibis. A criação de seus personagens foi contada várias vezes em gibis de linha, nos dois livros de crônicas memorialistas que lançou nos anos 1990, quadrinizadas na Biografia de Quadrinhos e no álbum Memórias do Mauricio. Mas, sem dúvida, há novidades mesmo para quem acompanha há muito tempo o criador da Turma da Mônica.

Em primeira pessoa, mas através de depoimentos colhidos por Luís Colombini, o quadrinista e empresário de 82 anos reconta a criação de seus personagens, de como foi repórter policial antes de ser desenhista, de como se organizou para divulgar suas tiras pelos jornais da região de Mogi das Cruzes (interior de São Paulo), de como foi montando uma equipe para auxiliá-lo conforme a demanda de trabalho aumentava. Porém com muito mais detalhes.

Vida pessoal

O desenhista conta um pouco sobre seus avós: os pais de sua mãe eram paraibanos e fugiram a pé para São Paulo por causa de uma briga política, nos anos 1910. Fala da relação com os pais e dos três casamentos.

Revela que já teve momentos de violento stress, de atirar telefones na parede, imagem incompatível com o homem de aspecto sempre tranquilo que se vê hoje. “Faz mais de 25 anos que não me estresso – por nada”, escreve.

Também toca em questões delicadas, como o sequestro do caçula de seus 10 filhos, em 2008. Ele narra os detalhes da negociação e cita brevemente o fato de ser um filho fora do casamento.

Mundo empresarial

Mas as novidades mesmo estão nos relatos acerca das questões empresariais da Mauricio de Sousa Produções. O fato, por exemplo, de que a empresa funcionou por 23 anos em um prédio pertencente ao jornal Folha de S. Paulo, sem pagar aluguel, luz ou água.

Mauricio também narra os bastidores das relações de sucesso e também do desgaste com a própria Folha e as editoras Abril e Globo. A luta pelo espaço para crescer sempre motivando as mudanças de casa: da Folha para o Estadão, em 1987, no caso das tiras; da Abril para a Globo, em 1987, e depois da Globo para a Panini, em 2007, no caso dos gibis.

O jogo duro dessas negociações é revelador, principalmente a respeito de projetos que não deram certo. Como a parceria com a Rede Globo para a produção e veiculação de desenhos e um programa com bonecos, com  direito a cidade cenográfica. Por motivos que o próprio Mauricio não sabe explicar, o projeto que prometia muito, gorou – mesmo com a tal cidade cenográfica sendo construída.

Um negócio que se desenrolou entre 1998 e 2003, que foi parar nos tribunais e resultou também na compra, pela Mauricio de Sousa Produções, do Parque da Mônica, que antes era um licenciamento. E, com isso, uma dívida de milhões de dólares, que, segundo o livro, ainda está sendo paga.

Conflito de informações

Várias histórias no livro já foram contadas anteriormente por Mauricio. E, curiosamente, elas têm versões diferentes vindas dele mesmo. Uma delas é a da animação Os Trapalhões no Rabo do Cometa (1986), produzida pela Mauricio de Sousa Produções, e estrelada por Renato Aragão e companhia.

Mauricio fala de um desentendimento entre os Trapalhões em 1985. O quarteto “se dividiu e brigou”, o que ameaçou seu filme anual. A solução salvadora foi a animação. No livro Navegando nas Letras (1999), ele fala claramente em separação do grupo.

Porém, os Trapalhões se separaram em 1983, por seis meses. E, ainda assim, não faltou filme: Aragão fez um, Dedé, Mussum e Zacarias fizeram outro. Antes do fim do ano, já estavam reunidos.

Esse desentendimento de 1985 teria sido só com relação aos filmes? Mauricio também conta que “mesmo sem ficar na frente das câmeras, os quatro ajudaram a viablizar o projeto”. Mas o filme tem cerca de 20 minutos com os Trapalhões em pessoa em cena, e contracenando com o próprio Mauricio. Se não foi uma falha de memória, é preciso uma explicação melhor.

Mauricio também afirma que seus personagens ficaram longe do cinema entre 1987 (ano dos longas O Bicho Papão e Outras Histórias e A Sereia do Rio) e 2006 (ano de Uma Aventura no Tempo), esquecendo de Cinegibi – O Filme, de 2004: o primeiro exemplar da série foi lançado no cinema, em 150 salas; os demais direto em home video.

Mauricio de Sousa aparentemente previu situações assim. Suas primeiras palavras no livro são: “Tudo que está na minha biografia é verdade. Aconteceu mesmo, ou eu acho que aconteceu”. Mas nada impede uma checagem para uma segunda edição.

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