terça, 19 de janeiro de 2021

Cultura
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Em João Pessoa, musical conta a história da irreverente banda Mamonas Assassinas

Audaci Junior / 31 de março de 2017
Foto: Divulgação
"Atenção, Creuzebeck! Creuzebeck, meu filho, vamos lá que vai começar a baixaria", avisava Dinho, num falsete esganiçado, há mais de 20 anos. O fenômeno do rock escrachado dos Mamonas Assassinas – vindo na velocidade de uma Brasília amarela descendo a ladeira na banguela – foi tão “passageiro” no plano físico quanto é duradouro no inconsciente coletivo.

O público paraibano tem a oportunidade de ser convidado novamente para “a tal suruba” que foi a irreverente trajetória do grupo em O Musical Mamonas, em única apresentação nesta sexta-feira, às 21h, no Teatro Pedra do Reino (Centro de Convenções), em João Pessoa.

“São histórias de brasileiros que o público quer assistir e colocamos no formato da Broadway”, explica Túlio Rivadávia, um dos produtores do espetáculo. “O musical conta a história desde quando eles eram a Utopia, uma banda mais séria de rock progressivo. Conta como Dinho entrou e a ascensão do grupo. Dinho era animador de comício num tempo em que nem se falava de stand up comedy”.

Escrito por Walter Daguerre e dirigido por José Possi Neto, o musical tem no seu elenco Ruy Brissac (como Dinho), Adriano Tunes (Júlio), Yudi Tamashiro (Bento), Elcio Bonazzi (Samuel), Arthur Ienzura (Sérgio) e Kadu Veiga (como o produtor musical Rick Bonadio).

“O Walter (Daguerre) – que já fez o musical do Jim Morrison – é um autor muito aberto. O texto foi colaborativo. Inclusive, eu mesmo criei algumas cenas com ele”, conta Rivadávia.

Além da pesquisa, a equipe conversou muito com os familiares dos Mamonas, com várias reuniões antes de (como diria Dinho) “workar” no roteiro em si. “A família me passou várias dicas, o que me ajudou bastante”, conta Ruy Brissac, ator que encarna o vocalista líder dos Mamonas e levou o Prêmio Bibi Ferreira de revelação. “Cantar não era problema, pois eu tinha aula de coral antes mesmo de ser ator. O processo mais difícil foi o da imitação”, revela.

Segundo o produtor, o musical deixou de lado a tragédia do acidente fatal de avião que tirou a vida da banda, um lugar comum explorado a exaustão pela mídia, e começa com o grupo no céu, observando o quão careta e vigilante do politicamente correto ficou o Brasil, resolvem relembrar a trajetória do grupo.

Na época da morte dos Mamonas Assassinas, Ruy Brissac tinha apenas seis anos e gostava mais de brincar na rua o dia inteiro do que assistir aos programas de TV. Mesmo assim, “não tinha como se contagiar com a alegria deles”, analisa. “A tragédia com eles foi o primeiro contato que eu tive com a morte”, confessa o ator.

Osmose. De acordo com Túlio Rivadávia, o processo de seleção do cast de O Musical Mamonas acumulava 15 dias de audição e cerca de oito horas diárias, num total de 1500 candidatos para demonstrar a versatilidade de atuar trajados de presidiários ou de Chapolins, dançar requebrando com o “Robocop gay” ou cantar com sotaque luso o “Vira-vira”.

O produtor ainda atenta com o tamanho da produção, que mobiliza duas carretas com toneladas de equipamentos e – para “playá” – conta com banda com cinco músicos, além de arranjos inéditos e releituras assinadas pelo diretor musical Miguel Briamonte.

“Eu me envolvi muito no processo”, conta Ruy Brissac. “Eram oito horas diárias, de segunda a sábado. Assisti muitos vídeos, mas, na verdade, as músicas foram por osmose. Quando me vi, estava cantando todas elas. Sempre estiveram no meu subconsciente”.

Há um ano de estrada, o ator fala que o grupo está à vontade no palco que eles sentem mais livres para brincar e passar ao público essa naturalidade da irreverência e escracho, marca registrada dos Mamonas.

“Muito legal a convivência que a gente tem. É engraçado, pois se damos muito bem e, antes da audição, nunca tínhamos nos encontrado. Parece que a gente já se conhecia desde a infância, numa atmosfera igual ao dos Mamonas”.

“O musical é para celebrar a memória de jovens que acreditavam nos seus sonhos”, diz Rivadávia. “Hoje ninguém consegue ocupar esse lugar no qual eles estavam, com esse humor despojado”.

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