terça, 24 de novembro de 2020

Dia da Mulher
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Artistas contam histórias de preconceito e reconhecimento

Renata Escarião / 08 de março de 2016
No século XIX era comum que mulheres escritoras tivessem que usar pseudônimos masculinos para conseguirem ter seus livros publicados. Também não foram raros os casos em que atrizes e cantoras tenham sofrido assédio e preconceito por trabalharem na noite. Consagrado internacionalmente à mulher em 1975, o dia 8 de março representa um marco no movimento feminino para adquirir direitos iguais ao dos homens em vários planos, e no século XXI tal demanda continua forte, inclusive no plano cultural.

Paraibanas que dedicam suas vidas às artes, a escritora Maria Valéria Rezende (nascida em Santos, mas morando há anos em João Pessoa), a atriz Zezita Matos, a artista plástica Marlene Almeida e a cantora Débora Malacar contam histórias de preconceito e reconhecimento.

Maria Valéria Rezende, vencedora da edição 2015 do prêmio Jabuti, diz sentir-se uma privilegiada. Ela conta que nunca quis ser escritora, escreveu o primeiro livro sem saber (já que foi feito pelas pessoas que ela presenteava com escritos) e essa falta de pretensão fez com que ela nunca se sentisse preterida por ser mulher.

“Mas não há como negar que esse preconceito recai sobre nós. Não posso me queixar, mas não estou falando em meu nome, mas em nome das minhas companheiras, escritoras que também enfrentam esse cenário dominado por homens”, comenta Maria Valéria.

Uma situação vivida pela escritora quando ganhou o Jabuti ilustra sua afirmação. Ela conta que quando o prêmio foi anunciado, jornais pelo país deram manchetes do tipo “Veterana bate Chico Buarque” ou outras semelhantes em que seu nome não era citado no título. Maria Valéria Rezende lembra que, nos últimos dois anos, mulheres têm vencido prêmios nacionais importantes, o que, segunda ela, é resultado de uma luta travada por gerações.

A atriz Zezita Matos lembra que quando começou a atuar, em 1958, muitas dificuldades existiram, mas sempre se sentiu respeitada pelos colegas e familiares, que nunca se opuseram a sua escolha de vida. Ela conta que foi a primeira mulher a dirigir o Teatro Santa Roza, de 1982 a 1986, e a primeira mulher a coordenar um curso superior no Unipê. “Dentro do meu processo como atriz e educadora, particularmente, sempre fui respeitada, mas conheço histórias de muitas colegas que enfrentaram e enfrentam preconceito. Ele existe, e não só nas artes, seja velado ou público”, afirma a atriz.

‘Música ainda é masculina’

Na música, a discriminação muitas vezes aparece em afirmações que parecem brincadeira, mas que revelam preconceitos. A cantora Débora Malacar, da banda Chico Correa & Eletronic Band, relatou um episódio em que, conversando com amigos que tem um estúdio, afirmou que achava o local bacana e queria estar mais presente para criar junto e trocar ideias, então um dos presentes disse que ela poderia fi car como recepcionista.

“Foi como se eu não tivesse capacidade de dialogar em relação a arte de uma forma a contribuir de forma frutífera”, diz Débora. Ela completa que “a mulher tem ganhado espaço, mas a música ainda é uma arte muito masculina, desde a remuneração até a visibilidade”. Para a artista plástica Marlene Almeida, apesar das dificuldades gerais, na área especifica da arte, as barreiras são menores.

“Claro que muitas ainda precisam trabalhar numa dupla jornada assumindo as tarefas domésticas e a produção artística. Mas, quando a obra tem qualidade e realmente interfere e modifi ca a sociedade, ela fala por si. Não existe o ranço feminista ou machista agarrado a uma escultura ou pintura. Não se produz obra feminina. É obra de arte”, defende.

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