terça, 13 de novembro de 2018
Circo
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Espetáculo conta a história de uma pioneira do circo no Brasil

André Luiz Maia / 06 de novembro de 2018
Foto: Divulgação
Na época em que mulheres mal sequer conseguiam ter sua independência financeira, uma delas vivia no mundo do entretenimento interpretando um palhaço. A história de Maria Eliza Alves, intérprete do Xamego, é contada por sua neta, Mariana Gabriel, no documentário Minha Avó Era Palhaço, dirigido em parceria com Ana Minehira.

Os paraibanos poderão conferir este filme na programação do V Balaio Circense, evento já consolidado no calendário cultural de João Pessoa, que traz a beleza dos picadeiros para os palcos.

Serão duas sessões hoje, a primeira delas exclusiva para os alunos da Escola Municipal Antônio Santos Coelho Neto. Depois, à noite, a Praça da Paz se transforma em uma grande sala de cinema para receber a exibição, seguida de um bate-papo com Mariana Gabriel e mediação do paraibano Bruno Vinelli.

Mariana explica um pouco da importância de contar a história da primeira palhaça mulher brasileira de que se tem notícia. "A gente acaba falando, por consequência, sobre uma série de assuntos bastante atuais e pertinentes, como o protagonismo negro nas artes, questões raciais e de gênero – afinal, era uma mulher interpretando um palhaço homem", salienta Mariana, ao CORREIO.

O palhaço Xamego fazia sucesso em meados dos anos 1950, circulando por todo o país ao som do baião homônimo de Luiz Gonzaga (“Todo mundo quer saber / o que é o Xamego / ninguém sabe se ele é branco / se é mulato ou negro”). Sua história de pioneirismo, no entanto, não havia sido documentada de maneira contundente até então.

Foi através do mergulho de sua neta Mariana no universo circense que o projeto se iniciou. "Eu cresci em uma família de artistas circenses, embora nunca tinha vivenciado isso. Minha mãe parou de se apresentar aos 15 anos, mas minha avó, com quem convivi boa parte da vida, me contava muitos casos dos tempos áureos do picadeiro", recorda a cineasta.

Dona Maria Eliza Alves viveu até seus 98 anos, falecendo em 2007. Nesse tempo, conseguiu transmitir muita coisa para sua filha, mãe de Mariana, que é uma das personagens principais do documentário. "Ela é a primeira pessoa que entrevistei nesse projeto. Ela disse odiar o Xamego porque 'ele tirava minha mãe de mim'. Foi um processo de ressignificação de memórias para ela", analisa Mariana. O documentário é fruto do projeto projeto-pesquisa Xamego, a Primeira Palhaça Negra do Brasil, agraciado pelo Prêmio Caixa Funarte Carequinha de 2014.

Para entender como chegamos ao resultado de Minha Avó Era Palhaço, é preciso voltar no tempo e conhecer a família de Mariana Gabriel. Seu bisavô, João Alves, era o dono do circo Guarani, um dos maiores do Brasil na primeira metade do século XX. Com a chegada da televisão, o circo como um todo passou por um processo de declínio, fazendo com que a família tivesse que vendê-lo para sobreviver. Sobraram as memórias.

Apesar de ter ouvido muito na infância sobre isso, Mariana decidiu cursar cinema. O desejo de ser atriz, no entanto, sempre permaneceu como uma atividade paralela, em produções amadoras. No início da vida adulta, ao passar por um processo doloroso na vida pessoal, ela seguiu o conselho de uma amiga e entrou em um curso para palhaços, aos 27 anos. A mudança estava só começando.

"Ali eu nem tinha essa noção toda, mas foi quando mergulhei em um processo que era muito meu, mas também muito dos meus ancestrais", declara. Em 2011, uma amiga palhaça a chamou pra um projeto-pesquisa sobre um grupo de circenses aposentados no bairro do Limão, em São Paulo. Ao conhecer a vida precária e as lembranças desses artistas, ela começou a perceber as semelhanças com a história de sua própria família.

Além do documentário, o projeto-pesquisa sobre sua avó gerou um blog, com a transcrição de todas as entrevistas e relatos romanceados pela mãe de Mariana com as memórias do circo.

A trajetória do documentário é curiosa. Exibido mais de 100 vezes (as sessões de hoje em João Pessoa – a primeira, à tarde, é exclusiva para estudantes – serão a 108ª e 109ª, respectivamente), nenhuma delas foi em um festival de cinema, mas, sim, em escolas, festivais de circo e eventos relacionados à área. Contemplado pelo Rumos Itaú Cultural, o projeto agora se concentra no resgate da história do bisavô de Mariana e do Circo Guarani, mais um capítulo da arte circense brasileira a ser documentado.

 

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