quinta, 15 de abril de 2021

Cinema
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Tito e os Pássaros traz reflexões sobre o medo

André Luiz Maia / 02 de março de 2019
Foto: Divulgação
Se existe algo que pode paralisar o ser humano, tornando-o vacilante e hesitante, é o medo. É justamente isso que a animação brasileira Tito e os Pássaros aborda, nem que seja em segundo plano. Embora seja um desenho infantil, ele traz reflexões que podem atingir tanto pequenos quanto adultos. O Cine Banguê exibe duas sessões do filme, hoje e amanhã.

A direção é tripla. Gustavo Steinberg, André Catoto e Gabriel Bitar desenvolvem a história de um menino, Tito, que precisa enfrentar uma série de desafios e obstáculos para salvar o mundo todo de uma epidemia peculiar: as pessoas estão ficando doentes ao sentirem medo. Diante do perigo, os seres humanos estão ficando literalmente petrificados.

Em entrevista ao CORREIO, Gustavo Steinberg conta como surgiu a ideia de fazer a animação e o porquê de abordar essas questões em um filme infantil. "Eu vi meus filhos nascerem e pensei: 'como é que eu vou falar para eles dessa loucura que a gente está fazendo?'. É tão difícil abrir uma conversa sobre coisas tão complexas e confusas que a gente criou no mundo, mas tenho a certeza absoluta que as crianças conseguem fazer um trabalho melhor do que a gente para resolver esse tipo de coisa", afirma.

Nascido e crescido em São Paulo, o diretor teve a oportunidade de viver em outros países e entender como o psicológico das pessoas é impactado pela sensação de violência, mais que a violência em si. "Mesmo que você não assista Datena, não há mais como se proteger, as redes sociais fazem com que essa violência fique pululando na sua imaginação o tempo inteiro", ressalta Gustavo.

"O caos é uma escada", já diria o personagem Petyr Baelish no seriado televisivo Game of Thrones. Em Tito e os Pássaros não é diferente. O vilão da história é Alaor, um apresentador de programas policialescos carniceiros, instrumentaliza o medo que as pessoas tem d'O Surto (como a doença é chamada) para promover seu novo empreendimento, uma rede de condomínios de alta segurança chamada Jardim Redoma.

Qualquer semelhança com a vida real não é mera coincidência. O fomento ao medo, na visão de Steinberg, é um ciclo vicioso difícil de se desvencilhar. "Estamos abrindo mão de construções que levaram séculos para a gente criar, de valores fundamentais como liberdade, igualdade e justiça, em nome de uma segurança falsa, que gera mais medo como consequência", pontua.

A imagem dos pássaros, utilizada pelo roteiro do filme como símbolo da redenção diante do medo, veio da maneira como Gustavo os observa na vida real. "São observadores privilegiados da experiência humana. Os pombos vivem coletivamente, como nós, mas eles têm uma relação estranha conosco e vice-versa. Eles já foram nosso principal meio de comunicação, com o pombo-correio, mas também são o símbolo de sujeira nas grandes cidades, com a qual a gente não quer ter contato. Esse paradoxo presente na relação com os pombos é uma boa analogia para essa relação que temos com os perigos imaginários que construímos", filosofa o diretor.

O pássaro também é símbolo para outra reflexão. "No filme, existem os pombos livres e rejeitados que, de uma forma meio metafórica, a gente usa para falar dessa necessidade de restabelecermos contato com esse lado livre e rejeitado do próprio ser humano. Talvez seja a única saída para essa loucura que estamos construindo", completa.

Mas, para além dessa questão do medo, o filme é uma aventura que cativa as crianças por suas belas imagens, com estética inspirada no expressionismo alemão, uma bela trilha sonora e também por se tornar uma jornada em busca de Tito pela própria identidade. "O medo não é o tema principal do filme, a gente fala do mecanismo de reforço do medo como pano de fundo de uma história de aventura. A ideia é fazer algo que seja divertida, que consiga se comunicar com o público, mas que também proponha essa reflexão. Ao que tudo indica, está dando certo", observa Gustavo.

Deu certo mesmo. Em 2018, o longa foi premiado como “Melhor Animação” em festivais internacionais como o Festival de Chicago e o Festival de Havana, além de ganhar Menção Honrosa no Festival de Sitges. Em outubro, o filme foi pré-indicado ao Oscar 2019 de Melhor Animação, o único brasileiro em uma lista com 25 títulos, além de ser indicado a Melhor Animação Independente no Annie Awards 2019, o Oscar da animação.

“O predador”

The Predator. Canadá/ EUA, 2018

Direção: Shane Black. Elenco: Boyd Holbrook, Jacob Tremblay, Olivia Munn

Classificação: 12 anos

Estreia hoje em João Pessoa. Sessões: hoje e amanhã (16h); dias 9 e 10 (15h)

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