terça, 25 de junho de 2019
Cinema
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Relembre a trajetória de Jerry Lewis, o rei da comédia

Renato Félix / 22 de agosto de 2017
Foto: Divulgação
Nos anos 1950, tres dos filmes de Jerry Lewis foram batizados no Brasil com "rei" no título: O Rei do Circo (1954), O Rei do Laço (1956) e O Rei dos Mágicos (1958). Em 1983, veio o definitivo O Rei da Comédia (1983), agora adaptação literal do original americano. Foi a expressão que mais se ouviu no domingo, após ser anunciada a morte de Jerry Lewis, aos 91 anos.

Em que pesem comparações com Charles Chaplin e Buster Keaton – a disputa por essa coroa é difícil – o título parece que pegou. E Jerry Lewis é certamente digno dele. É representativa até mesmo a maneira como ele foi desprezado no seu auge por críticos e acadêmicos por fazer o que fazia – comédia pura. A comédia, com raríssimas exceções, é sempre colocada em um patamar muito abaixo do drama.

Só os franceses, sempre mostrando aos americanos a qualidade que eles não percebiam em seus próprios filmes e cineastas, é que valorizavam Lewis naquela época. A ponto de, veja só, o fato virar piada na América. "Jerry Lewis, um cineasta para ser levado a sério? Esses franceses são loucos".

Lewis, pelo menos, viveu o suficiente para ter seu trabalho reavaliado nessa instância. É provável que seu sucesso popular imenso com um humor tão direto e pastelão tenha levado a crítica "séria" a torcer o nariz. O distanciamento no tempo e uma nova geração de críticos que cresceu com aqueles filmes revelaram as qualidades no cinema do comediante, e dos diretores que o dirigiram (Norman Taurog, Frank Tashlin e ele mesmo).

Comédia é, em grande parte, tempo. E Lewis era um mestre do ritmo, do tempo preciso da comédia. Quando assumiu a direção de seus filmes, ele aliou as loucuras visuais do seu personagem típico (o infantil trapalhão), já buriladas pelos filmes dirigidos por Frank Tashlin, a riscos que ele não precisava assumir.

Por exemplo. Seu primeiro filme como diretor é Um Mensageiro Trapalhão (1960). Uma homenagem aos comediantes do cinema mudo, nesse filme Lewis praticamente não diz uma palavra sequer. O filme também avisa, de cara, que não possui uma "história": é uma sucessão de gags visuais situadas em um hotel de luxo em Miami. Ali, o boy vivido por Jerry se embananava com os telefones, com os cachorros que levava para passear, tirava o motor de um Fusca achando que era a bagagem e era confundido com o verdadeiro Jerry Lewis.

Ficaram também mais frequentes os momentos em que a história, nos filmes seguintes, "para" para um tour de force cômico do astro. Em O Mensageiro Trapalhão (1961), há a reunião fictícia em que a "voz" do personagem é a música de Count Basie. Sequência que foi "refilmada" em um episódio da animação Uma Família da Pesada.

Ou a cena da máquina de escrever imaginária de Errado pra Cachorro (1963, de Frank Tashlin). Ou a dança na longa escadaria de Cinderelo sem Sapato (1960, de Tashlin), em plano sequência, de cuja filmagem Jerry saiu para o hospital, com um infarto, o primeiro de três.

A partir dos anos 1970, Lewis virou mais o mito que um criador. Sua tentativa de retorno nos anos 1980, após longo hiato, não deu certo. Foi um homem difícil (sua entrevista muito irritada ao Hollywood Reporter, em dezembro passado, viralizou), de declarações polêmicas, mas deixa mais evidente uma memória em tantos espectadores que cresceram assistindo a seus filmes no cinema e nas reprises da TV. Seus momentos geniais agora são fáceis de achar também no YouTube, prontos para uma nova geração.

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