quarta, 21 de agosto de 2019
Cinema
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Personagens ganham adaptação inteligente em ‘Turma da Mônica’

Renato Félix / 02 de julho de 2019
Foto: Divulgação
A mãe do Cebolinha atende o telefone. É a mãe da Mônica, perguntando se a filha está lá. Detalhe: é um telefone fixo. Não há celulares em Turma da Mônica — Laços (2019), um indicativo relativamente discreto de que o filme se passa em outro tempo. É um dos pontos (existem vários outros) de uma adaptação inteligente do universo de Mauricio de Sousa, a primeira com atores em carne e osso.

Esse recurso de mesclar a nostalgia da infância com a nostalgia da infância de outro tempo apareceu também em outro ótimo filme infantil brasileiro de 24 anos atrás e também com um personagem que saltou das páginas para as telas: Menino Maluquinho — O Filme (1995), de Helvécio Ratton, que sutilmente se passava nos anos 1960.

Nas HQs, a Turma da Mônica acompanhou em parte a atualização do mundo, mas manteve sua característica de brincar em casa e deixar o celular em casa. No filme, essa outra realidade, de menos tecnologia da comunicação e menor violência urbana, inspira uma nostalgia que fala aos adultos como a aventura em si e os personagens que todos conhecemos falam às crianças.

Mas essa realidade também dá maior credibilidade à história adaptada da HQ Laços, dos irmãos Vitor e Lu Cafaggi, na qual Mônica, Cebolinha, Cascão e Magali partem em uma jornada por uma floresta para descobrir quem sequestrou o Floquinho, cachorro do Cebolinha.

Com direção de Daniel Rezende e roteiro de Thiago Dottori, o filme é uma adaptação da HQ dos irmãos Cafaggi, mas responde também à turma da Mônica clássica, publicada desde os anos 1960 em tiras de jornais e gibis.

E aí, mais uma opção inteligente. O filme “traduz” os personagens para uma realidade mais realista (ou menos cartunesca). Se Mauricio “exagerou” crianças reais nas quais se inspirou para a turma da Mônica, Laços “desexagera” esse universo e consegue imaginar bem como eles seriam se fossem mais próximos da realidade.

Outro ótimo acerto é que o filme não menospreza a inteligência das crianças. Muitos filmes infantis caem na armadilha de serem bobos demais. Laços é inofensivo e tem sua inocência, mas evita bem o tatibitati. A aventura flui bem e tem até um certo drama: o filme tenta, de alguma forma, entrar em complexidades das amizades, onde o apoio muitas vezes devem vir apesar das discordâncias, e mesmo no relacionamento complicado entre Mônica e Cebolinha — entre tapas e (futuros) beijos, em que provocações e o laço forte que os une se misturam.

O filme também funciona como homenagem ao universo de Mauricio de Sousa, repleto de referências a seus quadrinhos. É divertido ver aparições de bonecos do Jotalhão e do Horácio, ou dar de cara com o Cranicola, mas felizmente essas inserções estão bem colocadas na trama e mesmo a aparição de Mauricio não destoa.

O Louco, particularmente, ganhou uma cena de luxo, com uma atuação apaixonada de Rodrigo Santoro. Talvez só a cena do fantasma parece artificial além do ponto, como se estivesse lá só para evocar o Penadinho. Mas não é nada que atrapalhe: o filme é um belo acerto.

“Turma da Mônica — Laços”

Brasil, 2019

Direção: Daniel Rezende. Elenco: Giulia Benite, Kevin Vechiatto, Laura Rauseo, Gabriel Moreira, Monica Iozzi, Paulo Vilhena, Rodrigo Santoro

Classificação: livre

Em cartaz em João Pessoa, Campina, Patos e Guarabira

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