sexta, 26 de fevereiro de 2021

Cinema
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Documentário conta como o escritor Guimarães Rosa ajudou judeus

Renato Félix / 03 de junho de 2017
Foto: Divulgação
João Guimarães Rosa é um dos mais importantes escritores brasileiros, isso quase todo mundo sabe. O que bem menos gente sabe é que o utor de Grande Sertão: Veredas foi também diplomata e vice-cônsul do Brasil na cidade alemã em Hamburgo, entre 1938 e 1942 – ou seja, no auge do Nazismo. E o que quase ninguém sabia era de suas ações para ajudar alemães perseguidos e ameaçados a emigrarem para o Brasil, concedendo vistos mesmo contra a orientação do governo brasileiro. Essa fase da vida do escritor é o tema do ótimo documentário Outro Sertão, de Soraia Vilela e Adriana Jacobsen, que estreia hoje no Cine Banguê, em João Pessoa – a primeira exibição comercial do filme, após uma batalha judicial para que fosse exibido.

"A gente começou a falar do projeto nos anos 2000, de maneira muito descompromissada", contou, por telefone, Soraia Vilela. As duas diretoras viviam na Alemanha, trabalhando para o canal de TV Deutsche Welle, e sabiam de Guimarães Rosa como vice-cônsul no país, mas pouco além disso.

Depois, elas ficaram ssabendo que os diários de Rosa estavam em processo de editoração por uma universidade em Minas Gerais. Soraia foi até lá em 2003 e copiou, com caneta e caderno (computadores não eram permitidos), trechos dos diários.

"Ao ler os diários, a gente foi se dando conta que existia essas observações", diz ela, se referindo ao nazismo e às pessoas que o procuravam por ajuda.

Elas também tomaram conhecimento das homenagens em Israel a Aracy Carvalho, no Bosque dos Justos e no Museu do Holocausto. Ela era funcionária da embaixada e depois, em 1947, se casaria com Guimarães Rosa. Aracy chegou a atravessar a fronteira da Dinamarca de carro com um fugitivo no banco de trás do carro e conseguia atestados de residência em Hamburgo falsos para ajudar pessoas que não eram da cidade.

Documentos. O filme é praticamente narrado pelo próprio Guimarães Rosa, a partir de cartas e trechos dos diários lidos por um ator. "Foi uma escolha mais ou menos estética", conta Soraia. "Seria muito fácil colocar um narrador, mas iria resvalar em um grande reportagem de TV. Foi extremamente difícil, mas foi a forma de trazer as informações sem banalizar a linguagem".

São as cartas que, no começo do filme, mostram o deslumbramento de Rosa pela Alemanha, ao chegar, e, meses depois, sua mudança de ponto de vista.

Outro Sertão também é rico em outros documentos, como o dossiê da Gestapo sobre o vice-cônsul. Mas o filé mignon é uma entrevista de Guimarães Rosa à TV alemã, as única imagens conhecidas em movimento e voz do escritor. Um registro histórico e inédito até na Alemanha.

"Era um projeto piloto de um programa de entrevistas com escritores, mas depois a TV desisitiu", conta a cineasta. "A gente escreveu para muitos arquivos da Alemanha perguntando por registros do Guimarães Rosa. Pensando, na época, em alguma imagem da época em que ele morou lá. Aí, a gente recebeu a informação de um deles de um registro com 11 minutos".

O filme traz depoimentos de pessoas salvas opor Guimarães Rosa e Aracy e de seus descendentes. As diretores encontraram, na Alemanha, personagens que tiveram sua história contasda em um conto do escritor e nem desconfiavam que o home que as ajudou havia se tornado um grande autor no Brasil. Descobriram aí que sua história foi relatada em uma língua que nem entendem.

"De início foi quase um trabalho de detetive. Foi muito trabalhoso. Às vezes passávamso meses seguiondo uma pista e, no fim, era um homônimo que não tinha nada a ver com aquela história", lembra Soraia.

Disputa judicial. Premiado no Festival de Brasília em 2013, o filme encontrou oposição das filhas do escritor que, segundo Jacobsen contou à Folha de S. Paulo, autorizaram a pesquisa no início, depois pediram R$ 60 mil para a dar a autorização do uso de imagem, depois R$ 300 mil e finalmente proibiram a veiculação.

Com a aprovação da lei que derrubou os vetos a biografias por parte do biografado e dos herdeiros, no ano passado, o filme passou a poder ser exibido. Mas as diretores encontraram dificuldades agora, entre os distribuidores, que consideraram que a hora do filme já tinha passado. Ele acabou chegando aos cinemas este ano, em sessões gratuitas promovidas pela Associação Brasileira de Críticos de Cinema (Abraccine) em diversas cidades. Cobra ndo ingresso, esta do Banguê é finalmente a primeira sessão.

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