sexta, 26 de fevereiro de 2021

Cinema
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Mirabeau Dias dirige série documental que resgata memórias de João Pessoa

André Luiz Maia / 26 de junho de 2017
Foto: Divulgação
Abrir as janelas da memória e observar o que aconteceu, entender como chegamos até aqui e prospectarmos um futuro. A história tem diversas funções, mas essa poderia ser a que mais dialoga com todas as pessoas. Diante disso, Mirabeau Dias, integrante da Academia Paraibana de Cinema, decidiu  produzir uma série de entrevistas com pessoas que contam  a história de João Pessoa a partir de seu ponto de vista pessoal, suas experiências. Esse trabalho está resultando na Coleção Memórias Paraibanas do Século XX, prevista para contar com doze volumes.

Cada DVD traz uma longa entrevista com pessoas que representam diversos aspectos de João Pessoa, seja por sua trajetória de vida, seja pelas atividades profissionais que exerceram. “Trata-se de um resgate histórico do século passado através da memória oral de pessoas que ainda não falaram muito publicamente sobre isso. É uma espécie de esboço sociológico”, explica.

Para quem gosta de registros memoriais, é um prato cheio. A escolha de cada entrevistado obedece a um critério temático decidido pelo grupo que organiza o projeto, formado por Mirabeau Dias, Genival Veloso de França, Wilson Guedes Marinho, José Jackson Carneiro de Carvalho, Natanael Rohr da Silva, Humberto Fonsêca de Lucena, Modesto Siebra Coelho, João Batista de Brito, Martinho Leal Campos e Wills Leal.

Para cada entrevistado, há um provocador, escolhido pelo próprio convidado, que serve como mediador para que as lembranças ganhem uma estrutura de raciocínio lógico. O primeiro volume discute a temática “Educação e Universidade”, com o ex-reitor da UFPB José Jackson Carneiro Carvalho, mediado pelo jornalista Silvio Osias. Outros nomes entrevistados foram Agmar Dias Pinto (“Cidadania e Sociedade”, com mediação de Ricardo Anísio), Genival Veloso de França (“Humanização da Cidade”, com Wilson Marinho), Wills Leal (“Entretenimentos Urbanos”, com João Batista Brito), Hélio Zenaide (“Jornalismo Político”, com Nelson Coelho), Ângela Bezerra (“Cidadania Feminina“, com Humberto Fonseca), Carlos Romero (“Crônica Urbana”, com o filho, Germano Romero) e Otinaldo Lourenço (“Modernização do Jornalismo”, mediado por Petrônio Souto). Os outros quatro volumes restantes ainda estão em produção, mas devem tratar de assuntos como geografia urbana, mobilidade, academia e literatura.

Embora haja uma base teórica para se formular o projeto, ancorado principalmente no livro Memória e Sociedade, Lembrança de Velhos, de Ecléa Bosi, não há uma pretensão metodológica acadêmica.

“É certo que elas retratam cenas do ponto de vista emocional do entrevistado, cheias de sombras psicológicas e desprovidas de certezas históricas. Elas nem sempre constituem fatos essencialmente históricos. Esses depoimentos são memórias percebidas por lembranças pessoais. Não estamos exatamente preocupado com a precisão de datas, mas sim em observar as transformações que a cidade passou sob o ponto de vista da experiência dos indivíduos”, complementa Mirabeau. Mesmo assim, foi realizada uma pesquisa iconográfica extensa, com vídeos, fotos, documentos e ilustrações que ajudam a contextualizar os relatos.

Mesmo com o projeto ainda a ser concluído, Mirabeau  já chegou a conclusões que considera muito interessantes sobre a cidade. “Noto que em todos os depoimentos que recolhemos até agora, algo permeia todos eles: o ponto de inflexão social, ocorrido nos anos 1940, um momento de urbanização e chegada de novas tecnologias, que trouxe certa modernidade para a cidade. Todos esses depoimentos atestam isso. João Pessoa passou a ter mais entretenimento, houve a criação de centros universitários, a mobilidade urbana foi mudando drasticamente”, aponta o estudioso.

Mirabeau Dias acredita que essa coleção serve para registrar um tempo que vai além do que está colocado nos documentos e serve para que as novas gerações entendam a constituição do mundo ao seu redor. “Queremos levar esses vídeos para as escolas, promover debates, mostrar aspectos que seriam esquecidos sem esses relatos”, completa.

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