segunda, 21 de setembro de 2020

Cinema
Compartilhar:

Leia o discurso completo de Meryl Streep no Globo de Ouro

Renato Félix / 09 de janeiro de 2017
Foto: Divulgação
Na noite em que “La La Land – Cantando Estações” fez história no Globo de Ouro, quebrando o recorde de prêmios para um mesmo filme (sete, incluindo melhor filme/ musical ou comédia), o grande momento da noite ficou com outra recordista: Meryl Streep, 30 indicações e oito vitórias.

Homenageada com o Prêmio Cecil B. de Mille, na cerimônia realizada ontem, em Los Angeles, Meryl fez um grande discurso em que atacou frontalmente o presidente americano eleito Donald Trump, partindo da situação em que ele zombou de um jornalista portador de necessidades especiais durante sua campanha à presidência.

De grande impacto, o discurso de Meryl imediatamente começou a ser repercutido e compartilhado na internet. Trump se manifestou logo: disse ao New York Times que “não estava surpreso” com esse ataque “dessa gente liberal do cinema”.

Leia a seguir o discurso completo da atriz:

“Por favor, sentem-se. Obrigada. Eu amo todos vocês. Vocês vão ter que me perdoar, eu perdi minha voz gritando e lamentando este fim de semana. E eu perdi a cabeça em algum momento este ano, então vou ter que ler.

Obrigada, imprensa estrangeira em Hollywood. Apenas para pegar o que Hugh Laurie disse: vocês e todos nós nesta sala realmente pertencemos aos segmentos mais vilipendiados na sociedade americana neste momento. Pense nisso: Hollywood, estrangeiros e a imprensa.

Mas quem somos nós, e o que é Hollywood afinal? É apenas um bando de pessoas de outros lugares. Nasci, cresci e fui educada nas escolas públicas de Nova Jersey. Viola nasceu num casebre arrendado na Carolina do Sul, cresceu em Central Falls, Rhode Island. Sarah Paulson nasceu na Flórida, criada por uma mãe solteira no Brooklyn. Sarah Jessica Parker era uma de sete ou oito filhos em Ohio. Amy Adams nasceu em Vicenza, na Itália. Natalie Portman nasceu em Jerusalém. Onde estão suas certidões de nascimento? E a bela Ruth Negga nasceu em Addis Abeba, na Etiópia, criada em Londres – não, na Irlanda, eu acho, e ela está aqui indicada por interpretar uma garota de uma pequena cidade da Virgínia.

Ryan Gosling, como todas as pessoas mais legais, é canadense, e Dev Patel nasceu no Quênia, cresceu em Londres, e está aqui por interpretar um indiano criado na Tasmânia. Então Hollywood está avançando com forasteiros e estrangeiros. E se chutarmos todos para fora você não terá nada para assistir, além de futebol e artes marciais mistas, que não são as artes.

Eles me deram três segundos para dizer isso, então: o único trabalho de um ator é entrar na vida de pessoas que são diferentes de nós, e deixar você sentir como é esse sentimento. E houve muitas, muitas, muitas poderosas performances este ano que fizeram exatamente isso. Trabalho de tirar o fôlego, com compaixão.

Mas houve uma performance este ano que me deixou atordoada. Cravou seus ganchos no meu coração. Não porque foi boa, não havia nada de bom naquilo. Mas foi eficaz e cumpriu sua missão. Fez o seu público-alvo rir e mostrar os dentes. Foi aquele momento em que a pessoa pretendendo sentar na cadeira mais respeitada do nosso país imitou um repórter com necessidade especiais. Alguém que ele superou em privilégio, poder e capacidade de lutar. Partiu meu coração quando eu vi, e eu ainda não consigo tirar isso da minha cabeça, porque não estava em um filme. Era a vida real.

E este instinto de humilhar, quando alguém na plataforma pública é modelo, alguém poderoso, é filtrado para baixo na vida de todos, porque dá um pouco permissão para que outras pessoas façam a mesma coisa. Desrespeito convida desrespeito, violência gera violência. E quando os poderosos usam sua posição para intimidar os outros, todos perdemos. “Ok, vá em frente com isso”.

Ok., isso me leva à imprensa. Precisamos de uma imprensa com princípios para manter o poder de cobrar, para repreendê-lo por cada ultraje. É por isso que os nossos fundadores consagraram a imprensa e as suas liberdades na Constituição. Por isso, só peço à afortunada imprensa estrangeira de Hollywood, bem como a todos nós da nossa comunidade, que se juntem a mim para apoiar o Comitê para a Proteção dos Jornalistas, porque vamos precisar deles para o futuro e eles precisarão de nós para salvaguardar a verdade .

Mais uma coisa: uma vez, quando eu estava no set um dia, reclamando de alguma coisa – você sabe, íamos trabalhar na hora do jantar ou por muitas horas ou qualquer coisa, Tommy Lee Jones me disse: "Não é um privilégio, Meryl, ser um ator?”. Sim, é, e temos de nos lembrar do privilégio e da responsabilidade do ato da empatia. Todos deveríamos estar orgulhosos do trabalho que Hollywood honra aqui esta noite.

Como minha amiga, a querida princesa Leia, me disse uma vez, pegue o seu coração partido, e o transforme em arte”.

Veja o vídeo:




 

Relacionadas