quarta, 27 de janeiro de 2021

Cinema
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Glória Pires encarna Nise da Silveira e revela grandes feitos da médica brasileira

André Luiz Maia / 05 de maio de 2016
Foto: Divulgação
Revolução. Glória Pires encarna Nise da Silveira em cinebiografia que revela os grandes feitos da médica brasileira. Ao invés de eletrochoque, arte. Dirigido por Roberto Berliner, o filme apresenta uma série de personagens transformados pela psiquiatra com seu tratamento humanizado.

O descaso e a violência cometida dentro dos manicômicos brasileiros (e do mundo) horrorizou profissionais como Nise da Silveira (1905-1999). A história da médica alagoana que revolucionou a psiquiatria ao tratar os acometidos por transtornos mentais de forma humanizada é transposta para a tela pelas mãos do diretor Roberto Berliner e conduzida com competência pela atriz Glória Pires em Nise – O Coração da Loucura, que finalmente estreia nos cinemas paraibanos hoje.

Antes mesmo da estreia do filme em circuito nacional, a produção já causava burburinho ao sagrar-se o grande campeão do Festival Internacional de Cinema de Tóquio. O júri, que também concedeu o prêmio de Melhor Atriz a Glória Pires, foi presidido pelo diretor nova-iorquino Bryan Singer (X-Men, Os Suspeitos), que se disse comovido com a forma singela como a história foi conduzida.

Em linhas gerais, o filme se passa logo após o retorno de Nise ao serviço público de saúde, após ser presa pela posse de livros marxistas e por outras razões políticas. O primeiro impacto se deu pelas práticas cotidianas da ala psiquiátrica do Centro Psiquiátrico Engenho de Dentro, no subúrbio do Rio de Janeiro, que consistia em eletrochoques e até mesmo em lobotomia – lembrada em uma das falas de Nise do filme, respondendo a um dos médicos da instituição: "meu instrumento é o pincel, o seu é o picador de gelo".

O pincel se refere ao método inovador implementado por Nise ao receber a incumbência de gerir a ala de Terapia Ocupacional. Ela a transforma em uma ambiente livre de violência, propício para o desenvolvimento de atividades lúdicas. Com o tempo, o setor torna um ateliê artístico, em especial de pintura, onde os pacientes revelam seu lado criativo e produzem obras de arte – definidas pela médica como "imagens do inconsciente", expostas no Museu de Imagens do Insconsciente, fundado por Nise e mantido pelo centro psiquiátrico até hoje.

A crítica especializada vem derramando elogios não somente à direção de Berliner e à atuação de entrega total de Glória, como também aos coadjuvantes, que encarnam personagens reais.

São os "clientes" de Nise e artistas plásticos com obras expostas no museu, como Adelina Gomes (Simone Mazzer) e Fernando Diniz (Fabricio Boliveira). "Sem fazer média, todos eles conseguiram mergulhar fundo na questão do problema mental. (...) As transformações pelas quais suas personagens passam ficam claríssimas, sem serem caricatas ou inverossímeis", opinou Roberto Bueno, em sua crítica para o Observatório do Cinema.

Uma passagem interessante, resgatada pela equipe de roteiristas do filme, é quando Nise escreve uma carta, em francês, para Carl Jung, psiquiatra que a inspirou, descrevendo sua experiência, sendo respondida e parabenizada pelo feito. O mérito do filme talvez seja o mesmo da Nise real: a entrega de todos os integrantes da produção sem medo.

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