quinta, 24 de janeiro de 2019
Cinema
Compartilhar:

Filme baseado em HQ de Marcelo Quintanilha estreia nesta quinta

André Luiz Maia / 21 de junho de 2018
Foto: Divulgação
Não é todo dia que o cinema brasileiro se ancora nos quadrinhos para fazer uma adaptação. Tungstênio, de Marcello Quintanilha, ganha uma versão para as telonas pelas mãos de Heitor Dhalia, de O Cheiro do Ralo e Serra Pelada. Quatro personagens complexos apresentam uma Salvador crua, caótica e bastante real no roteiro assinado por Marçal Aquino e Fernando Bonassi. O filme estreia nesta quarta-feira (20) nos cinemas de João Pessoa.

O paraibano José Dumont interpreta um desses personagens, Seu Ney, um ex-sargento do exército que sente falta dos seus dias de quartel, arquétipo que dialoga com o espectro do homem conservador, muito presente na realidade brasileira. “Ele acredita naquilo. Faz parte desse universo caótico, que contempla o Brasil de intolerância braba”, conta, em entrevista ao site Cosmo Nerd.

As outras três personagens compõem o mosaico de um recorte do Brasil embrutecido. Richard (Fabrício Boliveira) é um policial explosivo e violento, que age no limiar da lei para cumpri-la, às vezes não conseguindo enxergar o quão contraditório isso é. Em contrapartida, Caju (Wesley Guimarães) é o jovem periférico que encontra no tráfico de drogas uma porta para ascensão social. Keira (Samira Carvalho) completa o quarteto, evidenciando o problema da violência doméstica, já que ela sofre na pele os instintos violentos de Richard, seu marido.

De certa forma, a história de Tungstênio é uma escalada de tensão, em que os personagens, já inseridos em contextos problemáticos, se envolvem em uma espiral de conflitos, tendo que se adaptar às situações da forma que acham mais adequada, mas inevitavelmente se deparando com a impossibilidade de seguir à risca suas escolhas. Ironicamente, o que acaba amarrando as histórias dos quatro é uma causa nobre: evitar que um grupo de pessoas continue a usar explosivos para pescar na orla de Salvador.

A narrativa das HQs evita vilanizar ou amenizar as atitudes dos quatro personagens e o filme segue essa filosofia. “O diretor optou por um tipo de adaptação que se sustenta na fidelidade conceitual. O conceito do quadrinho foi absorvido por todas as pessoas envolvidas no processo e transposto para a tela de uma maneira muito abrangente. A forma como os atores foram capazes de se apropriar e dar voz a personagens que existiam apenas no papel é impressionante”, comenta o quadrinista Marcello Quintanilha, em entrevista ao Correio.

Marcello participou da produção da adaptação cinematográfica desde o início, chegando a fazer a primeira adaptação de roteiro. Ele confessa que está muito satisfeito com o resultado. “Já assisti ao filme várias vezes. Estive em algumas pré-estreias no Brasil e acompanhei o processo de produção desde o começo. Acho que o resultado é absolutamente maravilhoso, em todos os sentidos”, afirma o autor.

Apesar de ser de Niterói, Rio de Janeiro, Quintanilha acaba utilizando de elementos de sua experiência pessoal para compor a história ambientada na Bahia. “Meu maior interesse é tratar de temas relevantes. A tensão que permeia as relações humanas em todos os níveis é o que me interessa enquanto autor. Essa deve ser minha principal motivação. Sempre tento trabalhar temas que me são muito caros, tento lançar mão de situações que vivi ou de pessoas que conheci com certa proximidade, é algo que torna o trabalho muito mais vivo”, completa o quadrinista.

O título da obra, por sinal, é uma alegoria para essas relações elétricas e elásticas. Trata-se de um metal flexível, conhecido pela maior parte das pessoas por estar na composição dos filamentos de lâmpadas incandescentes. No entanto, é um material utilizado largamente na indústria de armas, podendo se fragmentar ou se tornar muito resistente, dependendo das condições as quais é exposto.

Qualquer semelhança desta característica com a personalidade das personagens do filme é mera coincidência. Eles se dobram diante das adversidades, podendo tanto se adaptar ou romper quando chega um determinado limite, além de se adequarem às relações, dependendo com quem estão interagindo.

Relacionadas