segunda, 10 de dezembro de 2018
Cinema
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Documentário sobre a arte da divisa entre PE e PB estreia quinta em JP

Audaci Junior / 13 de março de 2018
Foto: DIVULGAÇÃO
A terra sertaneja pode até rachar pela secura da falta d’água, mas o que brota na divisa entre os estados de Pernambuco e Paraíba é outra fonte, especificamente do Rio Pajeú, de cuja água quem bebe vira poeta. Esse é o mote para o documentário com um título que é quase uma declamação: O Silêncio da Noite É que Tem Sido Testemunha das Minhas Amarguras, que entrará em cartaz no Cine Bangüê, em João Pessoa, a partir da próxima quinta-feira.

O longa-metragem foi rodado nas cidades paraibanas de Ouro Velho e Prata, e na pernambucana São José do Egito, tomada como berço imortal da poesia.

“Eu nasci em Serra Talhada, que fica a duas horas de São José do Egito”, contou o diretor Petrônio Lorena em um depoimento na 40ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, onde o filme que foi um dos 10 finalistas do evento. “Desde a adolescência eu convivo com poetas e com artistas. Quando eu tinha 20 anos, eu fui lá a São José participar de festival de música e, ao entrar em contato com a efervescência poética, dos poetas velhos que ainda existiam e dos filhos desses poetas, pensei que deveria fazer alguma coisa com aquilo”.

De acordo com o realizador, quando ele começou a fazer cinema, esse tema foi o primeiro que jogou luz à sua cabeça, há mais 15 anos, sempre martelando em fazer um filme com aquele núcleo poético e com aquela tradição e cotidiano.

Apesar de São José do Egito ser o “epicentro da poesia”, o documentário não é apenas sobre essa cidade.

“Se for pra dar uma explicação histórica, na colonização da região, eles vieram pela Serra da Borborema, que é na Paraíba, desceram a serra e se fixaram ao redor dela e já no vale do Pajeú, onde é hoje Pernambuco, na cidade de Itapetim e São José do Egito”, explicou Petrônio. “Esse convívio com o entorno da serra, numa época em que se casavam primo com primo, expulsas na época da inquisição – isso mais 300 anos atrás – já traziam a tradição da oralidade, que herdaram dos mouros, da convivência árabe-judia na Península Ibérica”.

Segundo o diretor, essa influência oral foi moldada aqui de outra forma, com improviso, rima, com verso rico, agilidade de pensamento. “Tudo isso existia muito forte nos reinos árabes. Os poetas eram bem quistos e tinham a função de exaltar o rei, isso há milhares de anos”, apontou o pernambucano.

O Silêncio da Noite... passeia pela região, revelando a tradição herdada por várias gerações, vidas pautadas pela poesia e a prática diária de poetas, sonetistas, cantadores e violeiros que fazem de métricas e rimas disciplinadas um modo de vida.

Rigby com sotaque. “O que eu acho mais legítimo do documentarista é sempre voltar àquilo no qual está trabalhando, criar um envolvimento. Eu sempre retornava à região. Esse envolvimento fez com que a poesia, que já estava presente, entrasse mais ainda dentro de mim. Não a métrica, não o saber fazer poético, mas o sentimento. Lá tem muitos que dizem: ‘o verdadeiro poeta é o outro’. E o outro é aquele que sente. Então o verdadeiro poeta é o que sente, o que foi transformado”, explicou Petrônio.

O cineasta revelou que já conhecia protagonistas e coadjuvantes reais, antes mesmo de tomar a iniciativa e fazer o longa. Outros ele foi conhecendo aos poucos, tomando intimidade e deixando sempre claro a intenção de filmar, mas, em um primeiro momento, sem abrir a câmera para não intimidar.

Assim, ele diz ter feito uma espécie de cinema direto, pontuando os temas, mas deixando livre para eles fazerem o que quiser.

“A minha ideia de naturalidade veio a partir de não deixar a filmagem uma coisa tensa. Deixar mais divertida, como se a gente não tivesse filmando para que o cotidiano deles fosse captado com esse frescor do improviso”.

Quanto ao título poético, não foi escolhido à toa: faz alusão a uma das personagens, Severina Branca, dita a “Eleonor Rigby do Nordeste”, e quem deu o "mote" ao poema elaborado, então, por Didi Patriota.

“O título se refere também à dor e à alegria de ser poeta; da cumplicidade da madrugada na criação desses versos num sertão conservador e da utilidade social que a poesia traz a essas pessoas”, colocou Petrônio Lorena, que também codirigiu O Gigantesco Imã (2014), junto com Tiago Scorza, sobre Vanja, cientista e inventor pernambucano autodidata nascido em 1929.

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