quarta, 20 de janeiro de 2021

Cinema
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Diretor de ‘A Pessoa É para o que Nasce’ lembra convivência com as ceguinhas

Audaci Junior / 28 de março de 2017
Foto: Divulgação
“Ela tinha essa função prática de comandar”, enaltece o diretor carioca Roberto Berliner, sobre a Maria das Neves Barbosa, a Maroca, artista cega tocadora de ganzá (uma espécie de chocalho formado por um cilindro de metal contendo sementes ou seixos) com as irmãs Poroca (Regina Barbosa) e Indaiá (Francisca Conceição Barbosa), mais conhecidas como ‘As ceguinhas de Campina Grande’.

No último sábado, Maroca teve um Acidente Vascular Cerebral (AVC) e estava internada no Hospital Regional de Trauma da cidade. Morreu aos 72 anos. O enterro aconteceu no dia posterior, no final da tarde.

“Ela era muito entusiasmada para aquilo tudo se transformar em alguma coisa”, conta Berliner sobre o longa-metragem A Pessoa é Para o que Nasce (2004), documentário que teve grande repercussão nacional nos festivais de cinema na época. “As três têm esse complemento forte”, complementa.

Antes, o cineasta relembra que o primeiro contato foi em 1998, quando viajava pelo Brasil para produzir O Som da Rua, programas curtinhos sobre os artistas que tiravam seu sustendo se apresentando pelas ruas.

Passando férias em Roma, na Itália, Berliner falou com o CORREIO sobre o seu primeiro contato com as irmãs há duas décadas. “Fui filmá-las, mas elas estavam sem o ganzá na hora”, recorda. “Pedi para alguém da produção comprar o instrumento e ficamos parados ali, conversando, nas arquibancadas da Praça do Povo. Foi mais um bate-papo mesmo, mas eu tenho a mania de ficar gravando. Perguntei a Maria o que ela achava da vida e ela respondeu: ‘Eu mesma não posso reclamar, pois a pessoa é para o que nasce’”.

Para Berliner, foi naquela conversa que durou a ida da compra do ganzá – entre 40 minutos a uma hora – na qual foi apertado os laços de amizades entre eles. “É uma história que é para sempre por causa dos laços que fizemos há mais de 20 anos”.

O diretor, que deu uma casa a elas no final das filmagens, diz que ficou muito encantado com o trio. “Acho que A Pessoa é Para o que Nasce é um filme de amor mesmo. E a Maria foi uma das responsáveis por isso”.

Tendo uma vida árdua desde a infância, Maroca, Poroca e Indaiá trabalharam na lavoura desde crianças, sendo ‘alugadas’ como mão-de-obra temporária pelo próprio pai, que era alcoólatra. Quando ele morreu, as irmãs passaram a se apresentar pelas ruas de Campina Grande, cantando embolada e tocando ganzá para sustentar 14 parentes.

Junto com as irmãs – cegas desde nascença – Maroca recebeu por duas vezes (em 2004 e 2015) a Ordem do Mérito Cultural.

 

Bonequinhas. “Elas não se viam cegas”, conta a cineasta Antônia Ágape, que no começo dos anos 1980 dirigiu um curta em super-8 sobre as irmãs para o Núcleo de Documentação Cinematográfica da UFPB (Nudoc), cujas imagens fizeram parte também do longa A Pessoa é Para o que Nasce.

De acordo com a diretora, a produção foi feita através do maestro Pedro Santos, um dos criadores do Nudoc, que a elegeu para documentar histórias em Campina Grande, já que o político e poeta Raimundo Asfora queria ver realizado esse filme com as irmãs cegas.

“Conheci elas em frente da catedral de Campina Grande, junto com a mãe, que na época estava viva. Elas se sentavam feito umas bonequinhas na escadaria para tocar e cantar”.

De acordo com Antônia Ágape, o maquinário recém-chegado da França (por intermédio de um intercâmbio da UFPB com outra universidade de lá) foi roubado quando ela chegou à cidade. “Pedro Santos tomou a responsabilidade e liberou outro equipamento em super-8”.

Sem título – ficando conhecido pelo “filme das ceguinhas” –, o curta-metragem de 1981 poderia ter tido um batismo, lamenta a sua realizadora, que deveria ter defendido outro nome.

Na minha espiritualidade, na verdade, a pessoa nasce para o que é. “Como podemos justificar tamanha pobreza e mendicância na época? Era uma miséria de doer”.

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