sábado, 16 de janeiro de 2021

Cinema
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Confira a crítica do filme “Três anúncios para um crime”

Renato Félix / 27 de fevereiro de 2018
Foto: Divulgação
A audiência está acostumada (talvez adestrada) a assistir a filmes “torcendo” para alguém, recebendo as informações em termos de lados “certo” e “errado”. Essa pré-disposição não vai funcionar em Três Anúncios para um Crime, em cartaz em João Pessoa e forte candidato ao Oscar no próximo fim de semana.

Mildred, personagem de Frances McDormand (favoritíssima ao Oscar de melhor atriz), é, a princípio, é ela quem vai ganhar a simpatia da plateia. É uma mãe que vive atormentada pelo ainda não solucionado brutal assassinato da filha.

Ela usa três outdoors numa estrada para publicar mensagens cobrando do chefe de polícia local: a cidadezinha de Ebbing, no Missouri. Acaba dando certo: começa uma repercussão que incomoda a polícia local.

A polícia seria, claro, inoperante e talvez corrupta, certo? Um dos policiais, Dixon (Sam Rockwell, outro favorito, este para ator coadjuvante), é abertamente racista e homofóbico e é conhecido por ter torturado um negro que estava preso.

Conhecendo um pouco mais dos personagens, essas primeiras noções vão sendo borradas. O chefe Willoughby, cobrado, tenta explicar que a polícia fez o que pôde. Mildred não alivia, mesmo sabendo que ele está sofrendo de câncer. Rapidamente vemos que Willoughby é um policial honesto e dedicado, tentando apagar incêndios, controlar ânimos, não deixar as coisas piores.

Enquanto o filme observa o cotidiano naquela “América profunda”, provavelmente cheia de eleitores de Trump, ele vai tornando os personagens mais complexos. Mildred tem uma reivindicação justa, mas ela não estaria passando do ponto algumas vezes? Mais tarde, o espectador pode, no mínimo, se perguntar “será que ela realmente não passou do ponto?”.

Mesmo Dixon, que começa o mais unidimensional, passa por um processo de desenvolvimento durante o filme. Ele ganha uma cena capital de revelação, o incêndio na delegacia. Sequência que soa um tanto exagerada, mas na qual o realismo puro e simples é trocado pela força simbólica da construção da cena. O local de onde parte o ataque como uma vingança travestida de justiça, a purificação pelo fogo, etc.

Esta cena também é uma dos diversos momentos de climax do filme. Algumas cenas seriam candidatas a ser o grande momento de alguns filmes. Em Três Anúncios para um Crime, são passos para outras mais adiante. O espectador pode achar que está vendo um desfecho, e é surpreendido por novos desdobramentos da trama.

Martin McDonagh, diretor-roteirista, equilibra toda essa tensão com momentos de humor e guia o espectador a um final ambíguo e aberto. Uma cena que, como outras, leva a refletir sobre o discurso dos personagens e o discursos do filme – que não são automaticamente a mesma coisa.

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