quinta, 14 de novembro de 2019
Cinema
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Clássico do cinema brasileiro,’Terra em Transe’, tem entrada franca e debate

André Luiz Maia / 10 de julho de 2019
Foto: Divulgação
Uma radical polarização política em meio a uma crise expõe as fraturas sociais de um país. Achou que era a seção de Política do jornal? Parece, mas trata-se da premissa de Terra em Transe, clássico de 1967 do diretor brasileiro Glauber Rocha, exibido nesta quarta-feira (10) em João Pessoa.

A sessão é promovida pelo Cineclube Soy Loco Por Ti América e acontece na Casa de Cultura Livre Olho d'Água, no Tambiá. Após a exibição, o professor de cinema Paulo Yasha Guedes debaterá com a audiência sobre a produção.

A intriga de Terra em Transe é ambientada na fictícia República de Eldorado e se centra na história de Paulo Martins, um jornalista idealista e poeta ligado ao político conservador em ascensão e tecnocrata Porfírio Diaz. Ele tem uma discussão acalorada com Felipe Vieira, governador da província de Alecrim que resiste ao golpe de estado aplicado por Porfírio. Durante o entrevero, ele é ferido mortalmente pela polícia. Agonizando, começa a lembrar de sua vida em retrospecto, traçando os acontecimentos que culminaram em sua morte.

A trama, que envolve uma série de reviravoltas políticas e um estado de convulsão social era uma alegoria sobre o golpe militar de 1964. "O acerto de Glauber é ter percebido a irracionalidade brasileira. O 'transe' do título vem disso. No filme, isso está sendo representado pelo golpe de estado, mas essa alegoria concentra sentidos que ilustram o Brasil de qualquer época", define.

O protagonista passa a ser narrador da história, mostrando através de seu relato de quase-morte um país devastado pela pauta moral exacerbada e a miséria generalizada vivida pelo grosso da população. Diante disso, ascendem políticos populistas, que lançam mão de promessas fáceis para chegar ao poder, incluindo nesta disputa até mesmo a intelectualidade de Eldorado, que deixa de lado seus ideais puristas para tentar alcançar postos mais altos através da política partidária.

Neste processo, Paulo vê suas convicções se esvaírem ao perceber certa equivalência entre os líderes políticos burgueses, sejam eles reacionários como Diaz ou liberais como Vieira. Até ele próprio recorre ao maior empresário de Eldorado, Júlio Fuentes. Ele, de certa forma, é embuído por um sentimento de insatisfação e da negação à polarização. Todos esses agentes parecem bastante semelhantes com as discussões presentes no Brasil de 2019. O professor Paulo Yasha acredita que Terra em Transe é um filme primordial para entender a política contemporânea.

"A gente vive um momento de alta irracionalidade, por isso há a contemporaneidade na obra. O caráter grotesco e carnavalesco do filme parece menos surreal do que a realidade de hoje, em que os discursos estão mais virulentos e menos apegados à materialidade dos fatos", pontua Yasha.

Glauber Rocha sempre foi uma figura associada à esquerda brasileira e, em documentos revelados em 2014 pela Comissão da Verdade, mostrou-se alvo do regime militar, que pretendia matá-lo, mesmo durante seu período de exílio em Portugal. Curiosamente, Terra em Transe passa longe de ser um filme panfletário, no sentido partidarista. "Na verdade, é uma reflexão sobre o estado social do Brasil e de sua formação enquanto nação", acrescenta o professor Paulo Yasha.

Trata-se de um filme complexo e polêmico, que levou até mesmo a esquerda, na época, criticá-lo. Ironicamente, foi o escritor conservador Nelson Rodrigues que escreve um artigo em que compreende a crítica ao populismo e ao acerto do tom de delírio subjetivo na representação de Eldorado como uma alegoria de Brasil.

A obra, que chegou a ser proibida por algumas semanas no Brasil, agora pode ser vista sem restrições, embora o cenário político não parece ter se modificado sobremaneira.

 

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