sábado, 08 de maio de 2021

Cinema
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Cineastas paraibanos falam sobre racismo com ‘O nó do Diabo’

André Luiz Maia / 28 de junho de 2018
Foto: Reprodução
Os horrores extremos da época da escravidão se perpetuam até os dias de hoje na sociedade e filmes como O Nó do Diabo usam da ficção e do terror para expor as chagas reais e metafísicas do racismo. O filme paraibano de terror estreia nesta quinta-feira (28) nos cinemas de João Pessoa, um caso raro de sétima arte produzida no estado que se insere no circuito comercial.

O filme se passa em uma fazenda na Paraíba, centralizando cinco histórias contadas em capítulos. “A fazenda representa os vestígios da história do Brasil, dos grandes latifúndios. Muitos permanecem até hoje, continuando na política e em outras frentes. É como se o lugar fosse também um personagem”, pontua Ian Abé, um dos diretores da obra.

A locação das gravações é o Engenho Corredor, em Pilar. É onde o escritor paraibano José Lins do Rego nasceu e cresceu, servindo de inspiração para que ele escrevesse livros clássicos da nossa literatura como Menino de Engenho.

As histórias contadas estão em diferentes linhas temporais e cada uma delas é apresentada em um subgênero do terror. Há o terror psicológico, o chamado female revenge (vingança feminina), zumbis, dentre outros.

“O filme de gênero não tem muito reconhecimento aqui na Paraíba, mas não é algo de agora”, garante Ian. A Vermelho Profundo, responsável pela criação de O Nó do Diabo, já produziu alguns curtas-metragens do gênero, além de haver outros filmes nesse estilo criados por outros diretores.

Quem assistir ao filme no cinema pode perceber alguma semelhança com a narrativa seriada. A impressão não é aleatória: originalmente, o filme era uma série para a televisão, produzida para um edital da Empresa Brasileira de Comunicação (EBC) dedicado à exibição de produções audiovisuais brasileiras na TV aberta.

Por conta de uma série de imprevistos, os diretores Ramon Porto Mota, Ian Abé, Gabriel Martins (o único não-paraibano da lista) e Jhésus Tribuzi decidiram fazer alguns ajustes e exibi-lo em festivais pelo Brasil. “Na verdade, a gente concebeu, desde o começo, uma série em um formato que pudesse ser adaptada para um longa”, afirma Ian Abé, citando exemplos como O Auto da Compadecida, de Guel Arraes, microssérie de quatro capítulos adaptada posteriormente para o cinema.

A produção de O Nó do Diabo contou com uma dinâmica muito comum em seriados norte-americanos: a sala de roteiristas. “Os diretores estavam presentes em todo o processo, que ainda contou com a participação do roteirista Anacã Agra. A gente definiu as histórias e o subgênero de terror que cada uma iria explorar, mas cada diretor teve a liberdade de contá-la da forma que achasse melhor”, conta.

Distribuição

Um dos principais gargalos da produção de sétima arte no Brasil, especialmente fora do eixo Rio-São Paulo, é a distribuição. Os diretores já passearam por vários festivais, fizeram várias conexões que ajudaram a viabilizar a distribuição. “A gente sempre almejou a possibilidade de chegar na sala comercial, até para entender como nosso trabalho seria recebido pelo público comum, não apenas aquele nicho de sala de cinema independente.

Com contrato assinado com a Elo Company, O Nó do Diabo já teve a oportunidade de ser testado com essa plateia. Durante duas semanas, o Projeta às 7, da rede de cinemas Cinemark, exibiu o filme em 19 salas de cinema brasileiros. “Depois desse período de exclusividade, agora podemos pleitear a exibição em qualquer sala de cinema do país. Temos João Pessoa, Vitória e Fortaleza cravados. Agora é um segundo momento de batalha”, comenta Ian Abé.

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