terça, 19 de janeiro de 2021

Cinema
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Cineasta Ruy Guerra fala ao Correio sobre os temas que movem seu cinema

Renato Félix / 05 de novembro de 2017
Foto: Divulgação
Uma carreira de 55 anos no cinema brasleiro, 86 anos de vida, parcerias-amizades com Chico Buarque e Gabriel García-Marquez, dois filmes (por enquanto) a caminho. É só uma parte do portfõlio de Ruy Guerra, um dos mais importantes diretores do nosso cinema. Ele virá a João Pessoa no fim do mês para ser homenageado no Fest Aruanda.

O festival será de 30 de novembro a 6 de dezembro, no Cinépolis Manaíra. Guerra, moçambicano de nascimento, mas no Brasil desde 1958, considera o carinho do evento. “Homenagens são sempre agradáveis. Eu não as considero tanto sob o ponto de vista crítico, ‘a retificação de que sou um grande diretor’. A recebo com mais simplicidade, como uma manifestação de carinho para alguém que mereceu esse carinho por seu trabalho”, disse o cineasta ao CORREIO, do Rio, por telefone.

Guerra vai ministrar uma oficina no Fest Aruanda, ond eo público terá a oportunidade de ouvir suas ideias sobre a linguagem do cinema. Ele que gosta de procurar inovar nessa linguagem. “É uma coisa que sempre me ocupou, é mesmo uma obsessão”, diz. “Ao longo do tempo virou uma ação pedagógica, com wokshops ou oficinas, etc. Fui estudando e aplicando no meu trabalho como cineasta”.

Biografia não ‘chapa-branca’

Ruy Guerra é autor de um cinema engajado que rendeu títulos diferentes entre si, como Os Cafajestes (1962), Os Fuzis (1964), Ópera do Malandro (1985) e Kuarup (1989). Alguma coisa central o move enquanto cineasta?

“Acho que basicamente meu interesse pelo ser humano e tudo que o reprime e o que procura esmagá-lo”, responde. “Sobre os poderes instituídos, os tabus morais. Digamos que isso é um eixo que de uma forma sistemática se encontra nos meus filmes”.

O primeiro filme que dirigiu no Brasil foi Os Cafajestes, mas ele já trabalhava com cinema em Moçambique. “Comecei como amador. Faço filmagens desde os 16, 17 anos e comecei justamente com um documentário no Cais de Gurjão, o maior da África oriental. Já me chamava a atenção, desde muito jovem, a semelhança que havia nas imagens de um porto de trabalhadores negros com campos de concentração”, recorda. “Não que houvesse uma estrutura de campos de concentração, mas as imagens na sua violência de trabalho”.

Guerra chegou ao Brasil passando por Paris. Foi ator e assistente de direção em um filme francês, S.O.S. Noronha, que tinha Vanja Orico como atriz.

Veio ao Brasil convidado ppor ela para fazer um filme em Belém. O filme não deu certo, mas ele acabou ficando. “Foi no final de 1958. Depois da primeira Copa do Mundo (vencida pela Brasil), lembra.

Este ano o cineasta ganhou uma biografia, por Vavy Pacheco Borges: Ruy Guerra – Paixão Escancarada (Boitempo). “Aceitei com a condição de que não participaria, não leria nenhum texto – só depois de impresso”, conta. “Não queria uma biografia chapa-branca, queria uma biografia crítica. No sentido estético de que não pegasse só os amigos que falassem de mim elogios. Mas que procurasse opiniões diversas”.

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