terça, 13 de novembro de 2018
Cinema
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‘Arábia’, vencedor do Festival de Brasília, estreia nos cinemas da PB

Renato Félix / 19 de abril de 2018
Foto: DIVULGAÇÃO
Em Ouro Preto existe uma vila operária e lá, um rapaz encontra um diário. O caderno pertence a um trabalhador que sofreu um acidente de trabalho. O que ele conta é a vida de gente simples que vai de emprego em emprego nas fábricas e plantações da região, uma trajetória que é a história do filme Arábia. Vencedor do Festival de Brasília do ano passado, o filme entra em cartaz hoje em João Pessoa, no Cine Banguê.

A história chegou a ser comparada ao clássico grego Odisseia. “A gente gosta de pensar o filme como um épico de pequenos acontecimentos”, conta Affonso Uchoa, que assina a direção com João Dumans. “Isso, para a gente é interessante, porque permite essa relação entre a forma épica e a vida banal. Achamos que retratar a vida de um trabalhador de uma maneira épica não seria uma forçação de barra. Pelo contrário: seria justo”.

Para eles, essa relação é uma afirmação. “Olhar a vida de um trabalhador como se fosse uma odisseia: como se essa vida fosse tão grande, como se fosse tão importante quanto as grandes narrativas da literatura”.

O filme possui um “falso começo”, com a história do rapaz que encontra o diário. Primeiro, parece que será sobre o garoto, mas, a partir desse momento, é a vida do trabalhador que ganha a atenção do filme. “O prólogo na verdade tem, a ver com o processo do filme, com o filme que a gente estava construindo”, explica João Dumans. “O filme giraria em torno daquele garoto que morava ali naquela fábrica e resolvemos direcionar um pouco nosso foco de interesse e trabalhar mais profundamente esse personagem do operário. Então, tem um pouco a ver com o processo descontínuo do filme”.

O prólogo acabou ficando extenso para construir uma ambientação e um contexto. “Pra gente era importante essa ideia de que, de repente, a gente pode trombar com essa vida, e que essa vida é infindável em seus acontecimentos”.

Aristides de Sousa,o Juninho, trabalhou no anterior A Vizinhança do Tigre, premiado na Mostra de Tiradentes, dirigido por Uchoa e com Dumans como montador e roteirista. Os dois diretores incentivaram o ator a escrever ele mesmo um diário no processo criativo do filme. “Ele escreveu um caderno com memórias dele.Agora, essa caderno não foi base pra história do filme, não, sabe?”, explica Uchoa. “Esse caderno ajudou a gente de outra maneira, de descobrir uma voz desse personagem. Qual seria os sentimentos que seria importante para ele colocar no papel. Do que ele lembraria?”.

Arábia reflete bastante sobre o papel dessas empresas na vida das pessoas do interior mineiro (e brasileiro). “A Vila Operária acho que foi o local que mais nos provocou, em relação ao que a gente viu lá e às contradições que a gente viu lá”, conta Dumans. “Especialmente no papel que essas companhias desempenham na construção social das comunidades e também na construção subjetiva dos trabalhadores, que dependem daquelas fábricas para viver”.

“Por outro lado”, ele continua, “elas têm efeitos muito perversos sobre vários aspectos da nossa vida enquanto sociedade. Sobre o meio ambiente, como foi o impacto do desastre da Samarco. A gente vê muitas pessoas que querem que a fábrica volte e outras que obviamente não conseguem vislumbrar a possibilidade dessa fábrica voltando sem restituir tudo o que é devido a essas pessoas”.

E o que o título Arábia tem a ver com o filme? O título vem de um conto de James Joyce no livro Dublinenses. “Esse filme começou quando a gente tinha um projeto de um curta que ia adaptar o conto, adaptado para o contexto de Ouro Preto”, conta Uchoa. Na pesquisa, chegaram à Vila Operária, a questão do trabalho ganhou importância, o curta virou longa, mas o título ficou.

“Arábia”

Brasil, 2018

Direção: Affonso Uchoa, João Dumans

Elenco: Aristides de Sousa, Murilo Caliari, Renata Cabral

Classificação: 16 anos

Estreia hoje em João Pessoa

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