segunda, 21 de maio de 2018
Cultura
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Centro Cultural Piollin resiste como um espaço de apoio à cultura

André Luiz Maia / 06 de setembro de 2017
Foto: Divulgação
Quanto mais voltamos os olhos para a memória de João Pessoa, mais fácil é encontrar ações culturais que deixam marcas na história da cidade. O Centro Cultural Piollin é uma dessas ações, iniciativa de jovens atores paraibanos que se reuniam há exatos quarenta anos para iniciarem um espaço dedicado ao estudo das artes cênicas.

Fundada em 1977 com o nome de Escola Piollin, a ideia era criar grupos de estudo e pesquisa na área do teatro. Antes de ocupar o Horto Simões Lopes, o antigo Engenho Paul localizado no bairro do Roger, o grupo ocupou algumas salas desativadas do antigo Convento Santo Antônio, anexo da Igreja São Francisco. “Lá a gente teve não só as aulas de teatro, mas também apresentações culturais. Chegamos a ver um show do compositor e cantor Ivan Santos e Elba Ramalho cantou por lá logo no início de sua carreira”, comenta Buda Lira, atual diretor do Centro Cultural Piollin.

No ano seguinte à fundação, o espaço chegou a receber o I Encontro de Grupos de Crianças e Adolescentes, com jovens da capital e de cidades do interior como Cajazeiras e Pombal. Em 1979, o Governo do Estado anunciava as obras de restauração da Igreja São Francisco e Convento Santo Antônio, indicando a saída da Escola Piollin dos imóveis. “Na época, houve uma mobilização que chegou a nível nacional para evitar o fechamento da escola. Chegamos a ir até a Brasília para encontrar uma solução”, conta Buda. O grupo, de fato, desocupou o convento, mas em troca pôde se mudar para o local que atualmente ocupa. Fundado em 1856, o Engenho Paul surge na época em que a escravidão ainda era vigente. O enorme espaço por trás do atual Parque Zoobotânico Arruda Câmara, a Bica, ainda conta com a casa grande preservada, funcionando como um espaço para apresentações menores.

Descendo uma pequena ladeira, ao fundo, vemos outro espaço utilizado para o teatro, chamado de senzala. Apesar disso, Buda alerta que a senzala real do engenho foi demolida antes mesmo do Piollin chegar lá. “Normalmente esses engenhos antigos tinham uma senzala e uma capelinha, que também foi demolida”, alerta. Depois de desativado o engenho, aquele ambiente fora adquirido pelo Governo Federal, sendo utilizado como sede do Sistema de Defesa Sanitária Animal (Sidago). Posteriormente, foi transferido para a esfera estadual, que usou o espaço por muitos anos para sua secretaria de desenvolvimento agrário.

Com transferência para o novo espaço, a Piollin segue com as ações no campo da arte-educação voltadas ao público infantojuvenil, moradores do bairro e de comunidades próximas, durante toda a década de 1980 e 1990. Neste intervalo, o núcleo fundador realiza incursões na área de circo, confeccionando e adquirindo uma lona e produzindo o Festival Paraibano de Palhaços em 1983, 1984 e 1987. De lá para cá, dezenas de mostras de teatro, apresentações pontuais – inclusive sendo frequentemente palco das atrações do programa Palco Giratório do Sesc –, shows musicais e festivais ocuparam o centro cultural.

Nos últimos cinco anos, tivemos edições do Hacienda Festival, No Ar Indie Sessions, Festival Mundo e Aldeia Sesc acontecendo no Piollin. Apesar do sucesso dessas empreitadas recentes, esse tipo de atividade teve de ser suspenso temporariamente por um motivo nobre: a natureza. “Estamos ao lado de uma reserva florestal importantíssima, um pedaço da Mata Atlântica, e além dos animais que vivem nativamente na floresta, ainda há os que vivem na Bica. O barulho à noite estava os perturbando, então tivemos que interromper essas atividades que se estendem por muito tempo. Mas estamos estudando um jeito de aproveitar esse espaço para atividades culturais sem entrar em conflito com a natureza, que merece ser respeitada”, completa Buda Lira.

Sustentar um espaço das dimensões do Piollin não é fácil. Apesar de contar com um pequeno subsídio do governo estadual por conta do serviço de escola de circo, teatro e dança, o grupo precisa de renda para mantê-lo. “Com o escasseamento dos editais, a situação fica cada vez mais difícil”, ressalta o diretor do centro que é peça fundamental da memória do teatro e das artes paraibanas.

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