segunda, 12 de abril de 2021

Cultura
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Censura nas redes sociais veta arte de Romero Ferro

André Luiz Maia / 02 de fevereiro de 2017
Foto: Divulgação
Em novembro de 1990, Madonna lançaria nos Estados Unidos um de seus clipes mais polêmicos no quesito sexual, Justify My Love. Ao fazer menção a práticas sexuais pouco ortodoxas para a época, como o sadomasoquismo, dominação e relações com pessoas do mesmo sexo, o vídeo chegou a ser censurado pela MTV. Quase 27 anos depois, as coisas não parecem ter mudado muito. O cantor e compositor pernambucano Romero Ferro teve sua conta pessoal do Facebook suspensa na terça-feira (31) por conta de uma imagem de nudez, contida em seu clipe “O Medo em Movimento”.

O vídeo havia sido lançado ainda no ano passado, junto com seu primeiro disco, Arsênico. No entanto, ao publicar uma das imagens do clipe na rede social na segunda-feira (30), sofreu retaliações e teve as publicações deletadas por “conteúdo inapropriado”. A foto mostra o cantor sentado ao lado de atores parcialmente nus. No entanto, as reclamações se deram especialmente pela exibição dos seios de duas atrizes em cena e pela nudez explícita de maneira pública. Depois disso, publicou uma imagem na qual aparece acorrentado, questionando a possível censura que sofreu. Pouco depois, teve seu perfil pessoal bloqueado por 24 horas.

Classificando a situação como “surreal”, o cantor conversou com o CORREIO a respeito das reclamações. “Eu acho que existe um misto de muita coisa nessa situação, um pouco de machismo, pois a imagem mostrava os seios de uma atriz, e também de hipocrisia, pois a imagem em si estava atrelada a um contexto exposto no clipe, onde a nudez está ligada à libertação e não à erotização ou sexualização. Sei que era algo incomum, mas era arte, feita justamente para incitar um debate, um pensamento”, justifica Romero Ferro. Apesar do bloqueio e da discussão, Romero afirma que não vai fugir do debate. Durante o dia, algumas páginas do Facebook, como a Brasileiríssimos, compartilhou o videoclipe com a cena que gerou a polêmica, se posicionando a favor do pernambucano.

A discussão sobre a exposição de mamilos femininos publicamente não é nova. Um perfil no Instagram, intitulado Genderless Nipples (https://goo.gl/K0u0TC), ou “Mamilos sem Gênero”, faz essa provocação ao publicar close-ups de mamilos masculinos e femininos, sem distingui-los, para provar seu ponto. “Essa discussão tem muita relação com a sociedade machista, na qual o homem pode mostrar mamilos ao seu bel prazer e a mulher não. Tal distinção entre homem e mulheres é prejudicial à sociedade, pois fortifica a visão patriarcal e da sexualidade masculina livre”, explica o psicólogo clínico e educador sexual André Memória, que acredita ser crucial discutir sobre essas questões sem extremismos. “Quanto mais se fala sobre assuntos tabus, que envolvem muitos preconceitos, mais conscientes as pessoas ficam sobre tais temáticas. O primeiro passo para a quebra do tabu é o diálogo”, aconselha.

Nudez, erotização e natureza

O Facebook tem uma política de privacidade e regras, por se tratar de um ambiente privado, mas a velocidade na qual se deu a exclusão das imagens e o bloqueio do perfil de Romero pode ter se dado principalmente por conta das solicitações de usuários, que se sentiram ofendidos com a imagem. Alguns dos comentários alertavam para os perigos de uma imagem erótica estar exposta publicamente, pois facilitaria o acesso às crianças ao conteúdo indevido.

“Atualmente com a facilidade de acesso que as crianças têm ao Google e a diversos outros sites, é ingenuidade pensar que uma imagem no Facebook ou no Instagram está mais fácil do que qualquer outra imagem. Proibir as crianças de dialogar sobre nudez e sexualidade é mais um motivo para elas terem curiosidade sobre o tema, logo, é provável que elas vejam vídeos e imagens, mesmo sem a autorização dos pais. Essa proibição também fortifica os tabus e preconceitos sobre a nudez e a sexualidade humana”, alerta o profissional.

Romero afirma que o conceito do videoclipe “O Medo em Movimento” dialoga exatamente com essa discussão, propondo outro olhar sobre a nudez. “O clipe vem justamente com a ideia de quebrar isso, de mostrar que a nudez não precisa ser vista o tempo inteiro como algo erótico, errado. Como um pecado. Todos nós temos a nossa nudez, todo mundo ou tem um pênis ou uma vagina. Se uma criança é orientada dessa maneira desde cedo, ela não vai ter pensamentos deturpados em sua cabeça. É um pensamento inicial, que propõe desencadear outras questões, até que isso passe a ser visto de uma maneira mais natural”, argumenta.

Hipocrisia

Com a proximidade do Carnaval, essa discussão se torna oportuna. Há algumas semanas, quando a TV Globo anunciou sua tradicional vinheta da festividade, a Globeleza, representada sempre por belas mulheres negras com pouca ou nenhuma roupa, apareceu de forma diferente, com trajes mais comportados e ao lado de outras figuras, masculinas e femininas, de festejos carnavalescos de várias partes do país.

Discutiu-se sobre a mudança sob diversos vieses, inclusive o racial. Movimentos negros se posicionaram de maneira positiva à nova Globeleza, já que representaria uma ruptura na representação hipersexualizada de mulheres negras em um veículo de comunicação de alcance massivo. Mas também houve uma parcela significativa que viu com bons olhos a mudança por discordar da exposição de corpos nus na TV, enquanto outra parcela reclamou da postura, alegando excesso de pudor. O que tudo isso representa?

“Vemos hipocrisia sobre a exposição da nudez o tempo todo”, explica o psicólogo André Memória. “O Carnaval acabou se tornando um pequeno período de permissão (com ressalvas) para que as pessoas possam mostrar cenas de nudez e uma sexualidade mais aflorada. Porém, quando o período passa, as repressões impostas culturalmente voltam a vigorar. Quando começarmos a separar a nudez da sexualidade, possivelmente teremos uma sociedade sexualmente esclarecida e com menos preconceitos”, completa.


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