sábado, 19 de junho de 2021

Cultura
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Carlos Roberto de Oliveira, o idealizador da coleção Primeira Leitura

André Luiz Maia / 01 de novembro de 2016
Foto: Divulgação
Durante os últimos dois anos, os leitores do CORREIO puderam conferir no Caderno 2 matérias sobre os lançamentos da coleção Primeira Leitura, um projeto da Patmos Editora responsável por levar a história de figuras paraibanas ilustres contadas através de histórias em quadrinhos. As publicações e a editora eram fruto do esforço do jornalista, marqueteiro e empresário Carlos Roberto de Oliveira, que faleceu no domingo, aos 74 anos, em decorrência de um ataque cardíaco.

Embora seja reconhecido principalmente por seu trabalho no marketing político – a ele é atribuído o famoso slogan de João Pessoa, como segunda cidade mais verde do planeta, por exemplo –, sua obstinação em instituir um mercado editorial independente na Paraíba é um de seus principais legados à cultura do estado.

Através das redes sociais, diversos jornalistas, artistas, escritores e quadrinistas manifestaram sua tristeza ao descobrirem a partida abrupta de Carlos Roberto. Um deles foi o escritor Bruno Gaudêncio, responsável por três edições da coleção Primeira Leitura: as histórias de Pedro Américo, Ariano Suassuna e Horácio de Almeida. “Estou abalado ainda. Nos últimos dois anos, ele se tornou um amigo e um mentor. Era uma pessoa de alta capacidade intelectual, que me ajudou a crescer”, conta.

Ele faz questão de lembrar que esta não é a primeira vez que Carlos investia no mercado editorial, fundando ainda na década de 1970 a editora Acauã, com a participação dos também jornalistas Gonzaga Rodrigues e Natanael Alves. Antes da Patmos, também foi responsável pela Forma Editorial Ltda, publicando títulos como A Fala do Poder, reunião dos discursos dos governadores paraibanos realizada por Nonato Guedes, e o livro da desembargadora Fátima Bezerra Cavalcanti, até pouco tempo foi presidenta do Tribunal de Justiça do Estado, intitulado Guiadas pela Justiça, Movidas pela Fé.

Estava nos planos de Carlos Roberto contar os detalhes de sua própria trajetória em uma biografia. O convidado para a tarefa foi o poeta e jornalista Walter Galvão, que também colaborou com os projetos da Patmos, ao escrever o roteiro de Fidel Castro, o Herói da Sierra Maestra, da coleção Top 5, sobre figuras histórias internacionais. “Ele havia conversado comigo sobre essa vontade, mas era uma abordagem muito pessoal. Ele queria contar histórias que viveu, as emoções... Seria texto meu com direcionamento dele. Fica impossível agora”, lamenta. Para a Primeira Leitura, estava finalizando o roteiro para a publicação sobre Chico Science e iniciando sua pesquisa para Machado de Assis, além de pensar em roteiros para Abraham Lincoln e Adolf Hitler.

Walter salienta o esforço que o empresário fazia para impulsionar a cena, não somente os escritores, de maneira às vezes até altruísta. “Ele era um pioneiro. Sempre teve uma crença individual de que era possível profissionalizar artistas. O projeto dos quadrinhos ajudou a impulsionar nomes de ilustradores. Ele chegou a tirar dinheiro do próprio bolso para realizar esse projeto, algo que não lhe daria certeza de retorno financeiro”, completa.

O escritor Jairo Cézar possuía uma relação de amizade de 15 anos com Carlos. Não à toa, a primeira HQ da coleção, com a história de Augusto dos Anjos, teve roteiro de sua autoria. “Ele foi um pai para mim. Foi a pessoa que me abriu portas e colocou meus livros nos principais salões de livrarias do país, devo muito a ele. Sua morte deixa uma lacuna absurda, insubstituível. Não há uma pessoa que faça pela literatura paraibana o que ele fez. Ele pagava direitos autorais e se preocupava com a circulação dos livros, algo que sempre assombra os escritores daqui”, comentou.

Mas, com o falecimento do comandante da Patmos, como ficará o futuro da editora e seus projetos já agendados? O diretor técnico da editora, Talles Carrelo, adianta que ainda irá conversar com as filhas e os genros de Carlos Roberto para decidir como irão proceder. “Substituir a grandiosidade dele será tarefa impossível, mas daremos nosso máximo para honrar com todos os compromissos que a Patmos tinha até mesmo para 2017”, garante.

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