quinta, 18 de abril de 2019
Artes
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‘Permanências e Destruições’ realiza intervenções artísticas em espaços abandonados

André Luiz Maia / 14 de junho de 2016
Foto: Igor Vidor/Divulgação
Espaços urbanos abandonados, corroídos pela ação do tempo e pela ausência da intervenção urbana. Toda cidade tem um assim. No Rio de Janeiro, que viu seu natural crescimento ser acelerado exponencialmente com a realização da Copa do Mundo e, agora, dos Jogos Olímpicos, o projeto Permanências e Destruições, da Oi Futuro, realiza intervenções artísticas nesses locais.

Durante uma visita ao local, na última sexta-feira, nossa equipe pôde conferir a montagem da intervenção artística na Torre H, prédio localizado na Barra da Tijuca, Zona Oeste do Rio de Janeiro, desenhado por Oscar Niemeyer na década de 1970 com projeto arquitetônico arrojado. Enquanto uma torre gêmea encontra-se habitada e preservada até hoje, a edificação em questão está abandonada e nunca foi oficialmente entregue, passando, ao longo dos anos, por ocupações.

Com o intuito de realizar intervenções em alguns dos 37 andares do prédio, o curador João Paulo Quintella selecionou seis artistas visuais: Angelo Venosa, Daniel Albuquerque, Janaina Wagner, Igor Vidor, Anton Steenbock e a dupla This Land Your Land. Eles visitaram o espaço e desenvolveram ações específicas que dialogassem não somente com o edifício, mas também com seus arredores. “Procuramos artistas que já tivessem desenvolvido uma relação obra-espaço, de pessoas que tivessem essa carência pelo espaço”, pontua o curador.

Em dois trabalhos distintos, Daniel Albuquerque lança olhar sobre elementos do prédio e, a partir deles, cria um conceito artístico. Em um deles, pinta um dos pilotis, as bases do prédio, características da arquitetura moderna, transformando-o em um cigarro, além de incluir uma escultura em forma de cinzeiro ao seu redor. “Aproveitei uma das bases para pensar nessa obra, como uma espécie de analogia à corrosão do prédio em si. O cigarro é consumido pelas cinzas assim como a construção é consumida pelo tempo”, explica o artista visual.

No nono andar, em meio aos azulejos quebrados e o prédio em estado puro, há a transformação em uma galeria de arte com fotografias reproduzidas em pequenos quadros. Nelas, são exibidas reproduções de inscrições encontradas nas paredes da própria torre. “É uma maneira de mostrar que, mesmo atualmente abandonado, o prédio foi ocupado e ganhou vida ao longo do tempo”, completa.

Após uma longa subida – sem elevador, são aproximadamente 650 degraus –, no topo da torre, há uma cama elástica, intervenção proposta por Igor Vidor. “A primeira vez que eu subi aqui, a gente sente o corpo de uma forma diferente, como uma falência mesmo, que dialoga com a falência do próprio prédio. Tenho uma pesquisa que lida com a gravidade, de alguma forma, e minha ideia era criar um diálogo com a própria verticalidade do prédio, que ainda é o mais alto da região”, explica o artista.

Para o curador, o diálogo da arte com a cidade ainda é insuficiente. “A gente tem experiências ótimas ao redor do mundo, mas no Brasil isso ainda não é visto. É um problema que todas as grandes cidades encontram, mas o Rio, especificamente, por conta das Olimpíadas, passa por uma aceleração exponencial de crescimento e, com isso, vem um modelo de crescimento que não considera a experiência do pedestre, a experiência do ciclista, cria relações estanques e empobrecedoras com a cidade, pois há uma perda de sua capacidade sensível. A ideia é fazer uma provocação diante disso”, pontua João Paulo Quintella. (O repórter foi a convite da Oi Futuro)

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