sexta, 04 de dezembro de 2020

Artes
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Obra de paraibano, ‘Limbo – a história das gavetas’ chega a SP

Kubitschek Pinheiro / 01 de setembro de 2018
Foto: Divulgação
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O múltiplo artista paraibano José Rufino abre neste sábado (1º), às 11h, a exposição “Limbo” na Biblioteca Mário de Andrade em São Paulo.  É uma trajetória em carne e osso, que o artista garimpou nas paredes do passado, nos baús espalhados e multiplicados e formam a Mostra Limbo. Limbo é arte, é âmago, é saudade, é signo, é a linguagem que vai além dos espaços. Limbo é Rufino de corpo e alma.

A Biblioteca Mário de Andrade é atualmente dirigida por Charles Cosac, uma das pessoas mais importantes do meio cultural deste país e sabe da importância da obra de Rufino. “Nossa ligação já é antiga e eu já tinha participado de uma mostra coletiva na biblioteca em 2017 (Arte Sacra XVII-XXI), com curadoria dele e Itamar Musse. Assim que contei a ele de que se tratava o processo da mostra Limbo, o convite já estava feito. É uma exposição cheia de livros pintados, de livros-objeto, de livros de desenhos de livros querendo ser coisas de outras linguagens. Assim a BMA seria o local ideal para abrigá-la”, avisa.

Para o artista pensar nessa exposição foi como olhar para trás. Uma trajetória que vem de 1970, ano em que fez as primeiras manchas simétricas. “E que anos depois saberia que se enquadravam no teste psicanalítico do suíço Hermann Rorschach. Três dessas manchas, produzidas como trabalho de classe na Escola Domingos Sávio, estão na mostra como pré-obras ou proto-obras, juntando-se a esboços, experiências com poesia visual e arte postal, bem como com todas as obras que estavam em estado de esquecimento, de Limbo” adianta.

Mostrar esse arquivo de pedaços que se agigantam esse corpo que ele chama de “quimérico e heterogêneo é o resultado de um processo de aceitação da sua jornada, diante da tomada de consciência que o tempo passou e a juventude se foi. “Como o intervalo exposto na mostra inclui o período de infância e juventude, ela não é de todo composta por obras de arte, mas é, de fato, um recorte de tudo que foi sendo experimentado (vivido) ao longo do caminho de 48 anos que Limbo representa”, argumenta

“Limbo”  é retrato. “Trata-se de uma revelação de segredos que só se configurou durante a montagem na Archidy Picado, do Espaço Cultural onde Limpo foi inaugurada há pouco tempo. A motivação de fazer uma mostra com obras ou coisas que eu não considerava hierarquicamente iguais a outras, como as grandes esculturas, pinturas ou instalações, vem sendo nutrida há uns cinco anos, mas a manifestação foi como um pulso instantâneo”.

“Limbo” aqui. Foi primeiro aqui em João Pessoa e tem uma história curiosa de um porteiro que não gostava de obra de arte e viu sua exposição e fez comentários oportunos. Ele conta: “Sempre fiz exposições mais limpas, com obras ocupando os espaços com mais autonomia, eloquência. Limbo é o contrário, uma composição de dezenas de objetos, desenhos, pinturas. A montagem se aproxima de um gabinete de curiosidade, pedindo um olhar mais atento do visitante, mais investigativo. Um dia vi um funcionário da portaria da Funesc examinando lentamente cada coisa da mostra, bem de perto, quase entrando nelas. Quando me aproximei, ele disse que não gostava de arte, mas que estava gostando da mostra. Com palavras simples e diretas afirmou que era uma mostra que precisava de tempo para ser vista e que já estava decifrando de que se tratava Limbo. Eu costurei umas palavras para corroborar e me afastei. Ele permaneceu por lá, como quem juntava mais algumas pistas”.

A versão de São Paulo conta com um catálogo de 63 páginas editado pela BMA, com texto crítico de Charles Cosac e outro do artista, além de verbetes para cada obra documentada. A montagem em João Pessoa foi inteiramente distribuída na galeria Archidy Picado, que tem pé direito baixo e umas saletas contíguas ao vão principal. A montagem tinha uma certa lógica cronológica, mas as pessoas entravam pelo meio do tempo escolhendo a direção dos anos 1970-80 ou o lado das obras mais recentes. “Utilizei alguns parâmetros da Teoria da Gestalt, desde a seleção de obras por categorias, agrupamentos, similaridades, repetição de gestos, técnicas, materiais, assuntos, até a montagem. A relação de espaços com obras e vazios foi usada como estratégia de fortalecimento do conjunto, do todo em detrimento de cada obra individualmente”, afirma

Na Biblioteca Mário de Andrade a mostra está dividida entre quatro espaços, sendo uma sala principal, onde está um grande tablado com obras tridimensionais e o painel de obras de parede de 1988 até 2018; uma sala menor com as experiências dos anos 80, especialmente poesia, poesia visual e arte postal; uma sala com a maquete da instalação Ulysses, uma miscelânea de obras dos anos 90 e foto-documentos de obras realizadas em João Pessoa, especialmente nos anos 90. Completa a mostra uma grande escultura com raízes que não estava na versão de João Pessoa, no pátio da biblioteca.

Instalações silenciosas e o ateliê  cercado de plantas

O trabalho de Rufino salta aos olhos. Suas instalações se comunicam entre si, mesmo com aspectos modernos nessa fixação da imitação da vida.  “É intensa como tem sido desde o fim da década de 1988, ano que tomei como início daquilo que se chama de carreira artística. Desde então tem sido um processo ininterrupto, quase sem a lembrança de um dia sequer sem que eu não tenha feito algo no sentido da arte, pelo menos nutrindo um pensamento poético. O trabalho no ateliê é contínuo e envolve vários processos simultâneos, desde a idealização e produção de grandes instalações, que envolvem muitas pessoas, até o trabalho mais íntimo, mais encarado como experimento ou livre de compromissos com exposições e curadorias.”.

Rufino é o cosmopolita ermitão. Seu atelier hoje é afastado da cidade, um espaço enorme cercado de plantas raras. “Depois de ter tido apartamento-ateliê nos anos 80 em Recife e ateliês em São Paulo (1990-91) e na Praça Antenor Navarro, passei para um ateliê-sítio”.

Sim, ele confirma que sem dúvida todos os estímulos para pintura vieram especialmente da mãe. “Nos anos 80 fui incorporando meus próprios interesses, criando um repertório próprio que partia das minhas descobertas, silenciosas e quase sem encontrar parcerias. Como vivia em Recife, a cidade teve um forte impacto na minha formação, especialmente pelo convívio com artistas de vanguarda, como Jomard Muniz de Britto”.

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