terça, 12 de novembro de 2019
Artes
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Dyógenes Chaves expõe obras da série ‘ora pro nobis’ no Espaço Cultural

André Luiz Maia / 29 de março de 2019
Foto: Divulgação
Uma provocação e uma afronta à hipocrisia. Um dedo na ferida da religião. É o que promete a exposição Ora Pro Nobis, do o artista visual Dyógenes Chaves, que foi aberta nessa quinta-feira (28) na Galeria Archidy Picado do Espaço Cultural José Lins do Rego. O período de visitação se estende até o dia 3 de maio.

“Estou fazendo esta exposição 20 anos depois. É a mesma exposição no mesmo local. Mas é uma revisão. Se você ler um livro hoje, quando ler daqui 20 anos será outro, porque você é outro. Então a exposição não é a mesma, embora as obras sejam”, disse Dyógenes.

A exposição é uma explícita homenagem aos artistas Andy Warhol e Robert Rauschenberg em que apresenta obras que eles poderiam ter realizado à época dos anos 1960/ 1970, salvo algumas diferenças político-sociais entre as pop art americana e brasileira.

“Para a produção das obras, me utilizei do processo serigráfico (silk-screen), antes muito usado por estes artistas pop norte-americanos e/ou pela indústria publicitária para divulgar a imagem de um produto, em um cartaz ou embalagem. Aqui, a serigrafia ganha status de arte quando reproduzo, ampliado e em série, o rosto de Nossa Senhora, mito que virou ‘santinho’ e adesivo de plástico para automóveis, amplamente distribuído entre católicos brasileiros”, critica.

Ao optar pela serigrafia, um meio quase totalmente artesanal, o artista atenta para a importância do uso das “mãos” na construção dos objetos e produtos, algo cada vez mais raro no mundo contemporâneo, repleto de máquinas comandadas por outras máquinas. Hoje, tudo parece ser produzido em série, em escala industrial, para atender milhões de consumidores. Tudo tem gosto e cheiro de plástico.

Paralelamente à exposição, o artista irá colar em alguns pontos da cidade as mesmas obras expostas na galeria. A intenção com isto é provocar e levantar o questionamento do que é a arte.

“A mesma imagem que o público vai encontrar na galeria, a gente vai colocar como se fosse um cartaz de rua. E neste momento levanta-se uma questão: o que está na rua não vale nada, e o que está na galeria vale? Só porque está lá? Então quem dá este status de arte a uma obra não é o artista e sim a galeria”, provocou.

Além disto, a exposição tem um dedo apontado para a hipocrisia vivida nas igrejas. Segundo ele, algumas artes de rua, como pichações, grafites, entre outras, são consideradas desprezíveis, mas quando o que é retratado é a figura de Nossa Senhora, o contexto muda.

“Utilizo, de uma forma oportunista até, de um símbolo católico. Porque se você tiver na rua panfletando o retrato de um político, vai ter gente contra e a favor. Já o de Nossa Senhora a grande maioria é a favor. Aquela imagem, graficamente, representa o bem, a bonança. É uma panfletagem que o cara diz para colocar na casa. Quando eu comecei a botar na rua a imagem de Maria, uma mulher da casa vizinha pediu para colocar na casa dela. Então esta obra que a gente chama de rua é condenável, mas quando coloca Maria não é mais”, aponta.

Tal como no movimento pop art, Dyógenes se apropria de imagens da propaganda – religiosa, claro – trazendo-as para o discurso artístico. As imagens do consumo e do marketing passam a ser, ironicamente, a musa inspiradora da arte. Os ícones “sagrados” tornam-se o papel de embrulho do cotidiano. Algo como a banalização do sagrado ou o contrário: a sacralização do banal.

Por outro lado, a pop art (e sua aparência tão gráfica, tão publicitária) também ajuda a observar o meio urbano como paisagem, hoje excessivamente poluído por placas de outdoor de pouca inteligência e de luminosos de mau gosto. Além disso, cada vez mais apinhadas de gente e de automóveis, nossas cidades refletem o caos de uma sociedade tão carente, violenta, egoísta e desumana. Enfim, a obra (a exposição) pode até apontar para outras reflexões e questionamentos: é uma santa? A santa é um produto de marketing? Ou de adoração? Ou é apenas uma gravura?

Intervenções. Em algumas das ilustrações, o artista fez certas intervenções. Em determinadas obras, Maria aparece com o olho roxo, referência à violência contra a mulher e o feminicídio, a boca com batom, representando a vaidade, entre outras.

"A hipocrisia reina. A arte funciona como uma ferramenta de resistência, de denúncia. Basta ver a história da arte. A ‘Guernica’de Picasso, por exemplo, não é arte de panfletaria. Ela mostra o resultado da barbárie de Franco na cidade de Guernica" , falou Dyógenes.

Já em algumas há uma mensagem por cima da imagem, como em uma das ilustrações que aparece com o texto: "Quem mandou matar Marielle?". Segundo o artista, a intenção é realmente confundir e passar esta imagem política.

“Como diria Tom Zé: 'Eu não vim para explicar, vim para confundir'. A arte não foi feita somente para agradar. A arte é para isto mesmo, para provocar”, finalizou, citando frase que também foi usada pelo comunicador Chacrinha.

Sobre o artista. Dyógenes Chaves nasceu em Araçagi em 1959. Vive e trabalha em João Pessoa desde 1966. Artista visual, designer gráfico, gravador, atualmente é curador independente e membro da Associação Brasileira de Críticos de Arte (ABCA) e Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA).

 

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