quarta, 19 de dezembro de 2018
Artes
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Antonio Dias deixa como legado que navegava entre abstrato e figurativo

André Luiz Maia / 03 de agosto de 2018
Foto: Divulgação
Um dos expoentes da arte contemporânea se foi. Antonio Dias é considerado um dos artistas contemporâneos mais importantes do país, com projeção mundial. O artista tratava de câncer do pulmão há sete anos e foi diagnosticado em junho de 2017 com um tumor na cabeça.

Natural de Campina Grande, o paraibano começou a se interessar pelas artes plásticas ao aprender técnicas de desenho com seu avô paterno, ainda em sua cidade natal. No fim da década de 1950, muda-se para o Rio de Janeiro, com o objetivo de trabalhar profissionalmente como desenhista e artista gráfico.

Seu trabalho artístico acaba se consolidando de fato no Rio de Janeiro, frequentando aulas de Oswaldo Goeldi (1895-1961), no Atelier Livre de Gravura. Sua ida à Europa em 1965 foi decisiva para sua carreira, por conta de uma bolsa de estudos de pintura que recebera na Bienal francesa. Aos 21 anos, ganhou o prêmio da Bienal de Paris.

“Antonio é um artista internacional, com obras que transcendem a geografia do mundo, não se apegando a questões locais e regionais. Inclusive, isso era assunto de suas obras. (...) Desde muito jovem, traçou seu percurso, sempre num campo experimental, um artista do risco. Era extremamente inteligente e complexo, um pensador”, opina o artista visual José Rufino.

Nesse período de vivências na Europa, produz trabalhos em videotape, distribuídos pelos Arquivos Históricos da Bienal de Veneza. Em 1968, é contratado pelo Studio Marconi, em Milão, onde conhece a arte povera, que consiste na eliminação das fronteiras entre a arte e o cotidiano.

Entre idas e vindas, desenvolve trabalhos em Nova York, Milão e Sérvia, incluindo uma rápida passagem pelo Rio de Janeiro, em 1974, produzindo uma grande instalação para o Museu de Arte Moderna da cidade. No entanto, sua viagem transformadora foi para o Nepal, em uma época em que o país asiático não estava na mira de artistas ocidentais.

No país, ele faz uma pesquisa em torno da produção de papel, resultando em uma série de trabalhos envolvendo essa técnica, com estética e processos únicos.

Antonio Dias deixa um legado importante para as artes de maneira geral, mas aqui na Paraíba, opina José Rufino, ele não é lembrado como deveria. “É o maior nome da história da arte que a Paraíba já produziu. Ninguém teve a potência que ele teve até agora e a Paraíba reconhece muito pouco isso”, dispara o artista.

Rufino afirma que, embora tivesse poucas oportunidades de encontrá-lo pessoalmente, sua eterna vontade de mudar transformou Dias em uma de suas inspirações. “Ele estava sempre buscando uma nova forma de se expressar, evitando fórmulas. Quando comecei a trabalhar com arte, ele foi uma referência de que, embora paraibano, eu poderia trabalhar de maneira mais global e cosmopolita”, afirma.

Flávio Tavares é outro artista importante para a nossa cultura que reforça o peso que Antonio Dias tem para a história das artes. “Antonio Dias foi o maior expoente da vanguarda brasileira. É de uma geração de artistas que estiveram diante da instalação de regimes totalitários e de uma mudança brusca nas artes plásticas. Ainda assim, ele permaneceu por muito anos relevante no exterior”, conta.

Flávio lembra também que Antonio deixou um legado fundamental para as artes plásticas paraibanas, sendo um dos fundadores do Núcleo de Arte Contemporânea (NAC) da UFPB, ao lado de Raul Córdula, Chico Pereira e Paulo Sergio Duarte.

 

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