sábado, 19 de setembro de 2020

Artes
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Aderbal Freire Filho fala sobre a arte do palco e o realismo do cinema

Astier Basílio, especial para o Correio / 29 de outubro de 2016
Foto: Divulgação
Do Rio de Janeiro. Se há um diretor no teatro brasileiro que experimentou e experimenta as potencialidades do texto, esse diretor se chama Aderbal Freire-Filho. Seu ponto alto de investigação ocorreu em 1990, quando transpôs para o teatro A Mulher Carioca aos 22 anos, obra de ficção do escritor João de Minas. A montagem não fez uma adaptação cênica do texto. Utilizou-se os elementos literários para uma plataforma estética. Teve início o chamado "romance em cena" que, a partir de outras narrativas não dramáticas, se propunha a investigar o potencial estético e teatral da linguagem literária .

Nascido no Ceará, mas radicado no Rio de Janeiro desde os anos 1970, Aderbal está em cartaz no Rio com um novo espetáculo, A Paz Perpétua. Além de dirigir o texto do espanhol Juan Mayorga, a tradução da peça também ficou a cargo do encenador. A montagem integra a programação do Tempo_Festival, cuja organização é responsável pela publicação da peça pela editora Cobogó.

O título da peça faz alusão a um aforismo do filósofo alemão Immanuel Kant, segundo o qual, ao refletir sobre a guerra entre os povos, avalia que apenas no cemitério é que haveria condição de paz completa. A peça é sobre três cães que disputam uma coleira branca, símbolo de admissão no topo máximo de uma equipe antiterrorista. Três animais de perfis distintos: um forte, um sábio e um cínico.

Embora trabalhe com literatura, sem adaptá-la cenicamente, Aderbal nos últimos tempos vem trabalhando com dramaturgos contemporâneos. O melhor exemplo é a parceria com o libanês Wajdi Mouawad, de quem Aberbal montou, em 2013, Incêndios, produção que teve no elenco sua esposa, Marieta Severo.

Este ano, foi levado ao palco Céus, do mesmo autor. Ao ser perguntado sobre a relação entre o trabalho de pesquisa com o romance em cena e suas montagens recentes de dramaturgos contemporâneos, Aderbal traçou um verdadeiro panorama da evolução dramatúrgica e de como o cinema transformou o teatro. Vale lembrar ainda que Aderbal não é alheio à sétima arte: atuou, inclusive, em Juventude (2008), de seu amigo Domingos Oliveira.

Aderbal acredita que o teatro, hoje, tem de ser, ao mesmo tempo, narrativo e dramático. O diretor elenca como marcos decisivos para a reformulação da dramaturgia e da encenação o teatro épico, de Bertolt Brecht (1898 -1956), e o advento do cinema falado, a partir de 1927.

“O cinema mostrou que o teatro estava muito limitado”, pontua. Aderbal disse que o teatro realista ao se esforçar para fazer aquilo que o cinema já fazia encontrava limitações e engessamentos. “O teatro a partir dos românticos, a partir de um determinado momento, quis se fechar num espelho um espelho fiel da realidade. Esse teatro era muito pobre”.

Para ele, a evolução é algo recente. “Eu lembro de uma pergunta que sempre os jornalistas faziam: o cinema vai matar o teatro? E eu intuía que o cinema iria salvar o teatro, como de fato aconteceu”.

Para Aderbal, o cinema direcionou o teatro para outras dramaturgias. Realisticamente, não dá para competir com o cinema que pode filmar em qualquer ambiente. “É o teatro que descobre que pra ser ilimitado ele precisa ser simultaneamente dramático e narrativo”.

Ao voltar-se para as possibilidades já previstas em Shakespeare, o teatro, desprendido do realismo, ganhou vitalidade. No século XX, disse Aberbal, os diretores abriram a cena e começaram a montar dramaturgos de obras fechadas em suas cenas abertas, como Ibsen, Tchekov. “E depois vieram esses autores que começaram a escrever um teatro aberto”. (O repórter viajou a convite do festival)

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