segunda, 19 de outubro de 2020

Cultura
Compartilhar:

Ariano Suassuna completaria 90 anos nesta sexta-feira

André Luiz Maia / 16 de junho de 2017
Foto: Reprodução
Ao longo da história do Brasil, algumas pessoas foram responsáveis por construir representações acerca do Nordeste no imaginário da população do país. No campo da música, Luiz Gonzaga é um deles. Mas, ao pensarmos na literatura e no teatro, é impossível não lembrar de Ariano Suassuna. Seu conhecimento profundo do folclore da região e capacidade imaginativa o colocaram em um status que nenhum outro chegou.

Caso estivesse vivo, o dramaturgo, romancista, ensaísta e poeta paraibano, radicado em Pernambuco, completaria nesta sexta-feira (16) 90 anos. Pelo Brasil, diversas homenagens estão sendo feitas, além de produções que dialogam com Ariano e seu universo, criado principalmente pela vivência durante a infância na cidade de Taperoá, interior da Paraíba. A editora Nova Fronteira lança nesta sexta-feira (16) uma edição definitiva, com revisão feita ainda pelo próprio Ariano, de uma de suas obras canônicas, Romance d’A Pedra do Reino e o Príncipe do Sangue do Vai-e-Volta. Esse lançamento marca uma série de republicações da obra completa do escritor, mas também é prelúdio de uma de suas obras inéditas, que deve vir em novembro.

Há mais de trinta anos, Ariano estava escrevendo um romance inédito, que sumarizava sua obra e as incursões por diversas linguagens artísticas, como teatro, poesia, romance e artes plásticas, projeto denominado por ele próprio como A Ilumiara. O resultado disso é Romance de Dom Pantero no Palco dos Pecadores – Autobiografia Musical, Dançarina, Poética, Teatral e Vídeo-cinematográfica. "Ele revisita toda a obra através de um narrador, Antero Savedra, o Dom Pantero, que ministra aulas espetaculosas. A Pedra do Reino funciona como uma espécie de introdução a esse universo, embora Dom Pantero não se trate de uma sequência", explica o professor e pesquisador especialista na obra de Ariano Suassuna, Carlos Newton Júnior. Ele conta que há outros livros  e peças inéditos, além de projetos de antologias e coletâneas com crônicas e poesias do autor, que deverão ser lançados em um período de dez anos.

No Rio de Janeiro, estreou nesta quinta-feira (15) Suassuna — O Auto do Reino do Sol, peça da Cia. Barca dos Corações Partidos, que conta com a presença de três paraibanos na equipe de produção: Braulio Tavares, que assina a dramaturgia, a direção de Luiz Carlos Vasconcelos e a trilha sonora de Chico César, que trabalhou ao lado de nomes como Alfredo Del Penho e Beto Lemos para musicar as letras criadas por Braulio.

A convite da produtora Andrea Alves, Braulio desenvolveu uma história original que passeia pelas obras de Ariano. "Quando me chamaram, eu falei logo que não queria nem fazer uma biografia de Ariano ou uma adaptação das obras. Mas, obviamente, utiliza elementos de seu universo literário. Os personagens são meus, mas uso três elementos principais que encontro na obra de Ariano: o circo, o Sertão da Paraíba e uma história de amor entre membros de duas famílias poderosas, uma espécie de Romeu e Julieta sertanejo", esclarece o escritor, compositor e poeta.

A história se centra na jornada de uma trupe mambembe que vai até Taperoá para encenar uma peça em homenagem a Ariano Suassuna. No entanto, os obstáculos são muitos e, nessas inserções, são feitas diversas citações a passagens e personagens de obras clássicas do romancista, como A Pedra do Reino e Auto da Compadecida, mas também vai mais a fundo, coletando fragmentos de Fernando e Isaura, As Infâncias de Quaderna e da peça Uma Mulher Vestida de Sol, que marca o início de sua carreira e completa 70 anos agora em 2017. "O texto é absolutamente genial, com todas as referências ao universo de Ariano", explica o diretor Luiz Carlos Vasconcelos, outro paraibano envolvido no projeto.

Quando recebeu o convite e percebeu a forma de trabalho dos atores da companhia, acreditou que deveria também criar à sua maneira. "Eu trouxe a minha investigação, que eu já fazia com o Piollin. Montamos um grande tabuleiro, seguindo o que Ariano dizia, através da boca do Quaderna, que o mundo parecia uma mesa e a vida um jogo, onde passavam reis, rainhas, valetes, cupinchas... É uma cena ousada, com uma linguagem a ser decifrada pelo público. O resultado disso parece interessante. Cabe agora o resultado do público e da crítica, pois estou montando o teatro que eu acredito e que eu persigo", explica o diretor.

Aqui na Paraíba, o ator Tarcísio Pereira encenou recentemente um monólogo chamado Eu Me Chamo Ariano. Apesar da data, o projeto já estava sendo pensado há dois anos. "Nós estamos trabalhando para expandir esse texto, já que é uma montagem pequena, que conta a história de Ariano sob a perspectiva de um de seus personagens, João Grilo", explica o ator e diretor.

Relacionadas