domingo, 15 de julho de 2018
Crime
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Mortes de mulheres crescem na Paraíba

Beto Pessoa / 04 de março de 2018
Foto: Assuero Lima
9h30 da manhã de um domingo. O despertador toca num dia que não precisava tocar. Com o celular em mãos, passeio pelas redes sociais, meio que para adiar o dia que começa, meio que para me informar sobre o que está acontecendo. "Mulher assassinada com 28 facadas em Santa Rita", diz a manchete de um site de notícias. Não preciso entrar na matéria para saber do que se trata: mais um feminicídio, provocado por um marido com ciúmes ou um namorado com ego ferido.

Nos segundos que a página leva para carregar, lembro de Aryane Thais, assassinada pelo namorado. Lembro de Rebecca Cristina, morta pelo padrasto; lembro da professora Bríggida, esganada pelo marido. Lembro de Vivianny Crisley, Brunna Alverga, lembro das mulheres de Queimadas. Lembro que o mundo não é fácil para todo o mundo. E para as mulheres, ele é perigoso e letal.

Neste 8 de março, o Correio da Paraíba traz um caderno especial em homenagem às paraibanas. No lugar do vermelho das rosas, pautaremos o vermelho do sangue das vítimas de uma sociedade que, quando não bate, naturaliza agressões, criando fogueiras simbólicas onde são jogadas as ‘bruxas contemporâneas’, destaque da matéria de abertura do caderno, que fala sobre culpabilização das vítimas.

Em minhas mãos, a foto de Joseane França, morta com 28 facadas em Santa Rita, surge na tela do celular, caída sem vida num chão tomado do vermelho do seu sangue. Penso que a aura sombria que envolve seu corpo poderia ser de uma das mulheres que me cercam. Mãe, irmãs, amigas, colegas de trabalho. Nenhuma paraibana está blindada e a violência está sempre à espreita, mais próxima do que qualquer um possa imaginar.

Elas morrem e morrem como se morre em guerra, numa batalha que afeta filhos, amigos e familiares. A taxa de homicídios de mulheres, classificada pela Organização das Nações Unidas (ONU), demonstra que as ruas e os homens que as ocupam se tornaram sinônimo de perigo às mulheres.

No decorrer da reportagem, entre pesquisas lidas e relatos escutados, dados se misturam com casos, estimativas encontram assassinatos, revelando um cenário que impõe medo. Um medo que me afeta, mas que não chega perto do que elas sentem ao andar desacompanhadas nas ruas. Um medo que não conhece o que é ser tratado como promíscuo por escolher usar determinada roupa; medo que não sabe, como só elas sabem, o que é ser culpabilizado por escolher com quem me relacionar.

Depois de apreender relatos, ser afetado pelos casos e questionar a natureza de tanta violência, existe uma certeza: é um mundo de homens. Onde somos criados como senhores do próprio destino, ao contrário da maior parte das mulheres, que diariamente lidam, não somente com os vigilantes dedos inquisidores da sociedade, como também com a mão do homem que mata.

Sobreviventes das violências, delegadas da mulher, psicólogas e representantes de coletivos feministas lembram no caderno do Dia da Mulher que o 8 de Março não é somente para homenagear, mas sobretudo cobrar uma dívida há décadas atrasada. Como lembra Maria da Penha, uma das entrevistadas da reportagem especial, a data deve fazer os gestores públicos recordarem que, enquanto as cidadãs não forem de fato protegidas, casos com o dela, que ficou paraplégica após receber diversos tiros do marido, continuarão sendo corriqueiros no Estado.

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