sábado, 19 de outubro de 2019

Roberto Cavalcanti
Compartilhar:

Voar

16 de dezembro de 2018
Por toda minha vida divaguei entre a fantasia e o sonho. Houve momentos em que esses sentimentos se fundiram em realidade. Nascido no exato pós-Segunda Guerra Mundial, tive minha geração influenciada fortemente pela mesma. Os meus ídolos eram os pilotos de aviões.

Em uma época desprovida totalmente dos eletrônicos, o mundo era analógico e real. Ler livros era obrigação e prazer. Todo jovem teve acesso à obra de Antoine de Saint-Exupéry, “O Pequeno Príncipe”, que para mim foi de emoção atenuada. Empolgava-me em ler e reler do mesmo autor “O Aviador” (1926), “Voo Noturno” (1931), “Terra dos Homens” (1939) e “Piloto de Guerra” (1942).

Sua vida como escritor para mim era consequência do sonho que era ser piloto como ele. Na minha infância, durante os carnavais, era perguntado por minha mãe Beatriz com que fantasia gostaria de brincar. Repetitivo e constante mantive por vários anos seguidos a mesma fantasia de piloto. Ali, estavam a fantasia e o sonho incorporados. Sentia-me o próprio piloto e, em uma época do lança-perfume, escapava ainda de ter os olhos atingidos pela proteção que a viseira plástica de voo proporcionava.

Cresci voando no imaginário. Aos 17/18 anos, iniciei meu curso de piloto privado no Aeroclube de Pernambuco, o “Encanta Moças”, sendo brevetado. O sonho voar e a fantasia encantar estavam realizados.

Já voava anteriormente no sentido físico/aerodinâmico na prática da vela. Tanto é verdade que os voos de planadores são conhecidos como voos à vela.

Em um período em que o Brasil tinha uma aeronáutica civil e militar pujante, fui na infância beneficiado com várias oportunidades de voar. À época, havia uma forte aviação regional e eu menino ia e voltava sequencialmente de Recife a Garanhuns em um DC-3, acompanhando minha tia Rosa, a solteira da família.

Voar, sempre voar, faz parte de mim. Zero medo, zero Jet lag, me permitiu conhecer todos os continentes do planeta Terra sem ser astronauta.

Quem ama, presta atenção! Algo de sombrio paira sobre meu sonho de voar. Atento, desde novo sofro com a fragilidade de um setor tão forte e fascinante. Sempre torci pelo sucesso da aviação como um todo, acompanho o dia a dia, no entanto, me impacto ao assistir os insucessos. Como empreendedor me incomoda testemunhar as derrocadas da aviação civil.

Esta semana fui surpreendido pelo pedido de recuperação judicial da Avianca Brasil. Passageiro frequente da mesma, lhe dava preferência por várias razões, dentre elas o conforto e os seus bons horários. Quem, por força do trabalho, tem que estar constantemente voando sabe do que estou falando. Que pena, ela faz parte do meu show entre o sonho e fantasia.

Atento, registro ao longo da vida outros insucessos e me questiono o que há com esse setor para permitir tão extensa relação de infortúnios.

Vou listar empresas que conheci e que não mais existem: Panair do Brasil, Vasp, Cruzeiro do Sul, Varig, Real, Aerovias, Aeronorte, Nacional, Sadia, Transbrasil, Lóide Aereo, LAP, Air Minas, Aerolloyd Iguassu, Via Brasil, Aliance Jett, Ata Brasil, Brasil Central, Brasmex, Flex Linhas Aéreas, Fly, Litorânea, Nordeste, Paraense, Penta, Plantinum Air, Promodal, Rio Sul, Taba, Votec, Noar, Puma Brasil, Trip, Aero Brasil, Air Brasil, America Air, Condor Syndikat, Itapemirim Cargo, Jet Sul, Web Jet, Beta e BRA.

Por que tantas? Acredito que a edição na última quinta-feira, 13, da MP que libera até 100% de capital estrangeiro nas companhias aéreas chega em boa hora. Hoje, sonho que a Avianca se recupere e que possamos com ela voar. Para mim, é sonho e fantasia.



Roberto Cavalcanti. Empresário e diretor da CNI.

Relacionadas