quarta, 13 de novembro de 2019

Roberto Cavalcanti
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Verde e amarelo

29 de agosto de 2019
Quando adentro a temas sobre os quais existem fortes conotações ideológicas, procuro fontes que tenham pensamentos, em princípio, antagônicos ao meu. Enriqueço-me com o contraditório e, muitas vezes, deparo-me com felizes coincidências de entendimentos.

Busquei pensadores que se posicionaram sobre ecologia. Não resta dúvida de que o assunto está na ordem do dia do Brasil e do mundo, potencializado por uma luta fratricida, que viralizou. É o famoso jogar gasolina em incêndio.

Fui pesquisar como o teólogo Leonardo Boff o aborda. “O termo ecologia foi cunhado em 1866 pelo biólogo alemão Ernst Haeckel (1834-1919). Ele é composto de duas palavras gregas: oikos, que significa casa, e logos, que quer dizer reflexão ou estudo. Assim, ecologia quer dizer o estudo que se faz acerca das condições e relações que formam habitat (casa) do conjunto e de cada um dos seres da natureza”.

Na definição de Haeckel, “ecologia é o estudo da interdependência e da interação entre os organismo vivos (animais e plantas) e o seu meio ambiente (seres inorgânicos)”.

Um século atrás, a ecologia constituía um ramo da biologia. Representava apenas um interesse científico regional. Para nós, hoje, significa um interesse global.

“Ecologia é luxo dos ricos. É coisa do hemisfério Norte. Depois de haverem depredado a própria natureza em seus países, e saqueado os povos colonizados do mundo inteiro - e com isso se desenvolvido -, querem para eles um meio ambiente saudável e reservas ecológicas para a preservação das espécies em extinção”.

“É verdade. Os países industrializados, quase todos situado no hemisfério Norte, são responsáveis por 80% da poluição da Terra, mas o problema hoje é global e não mais regional”, afirma Boff, que, repetindo Josué de Castro (1908-1973), garante: “A pobreza é nosso maior problema ambiental”.

Diz ainda o teólogo que já foi da Ordem dos Frades Menores, ou seja, franciscano: “Essa situação de injustiça social acarreta uma injustiça ecológica, e vice-versa. Mais uma vez, perdeu-se a visão originária de ecologia, que se relaciona não apenas com animais, plantas e a pureza da atmosfera, mas também com as relações solidárias e globais do ser humano com a natureza”.

Busco outras referências sobre o tema e me prendo ao discurso de Fidel Castro, proferido em 12 de junho de 1992, há 27 anos, no Rio de Janeiro. Confira:

“Una importante especie biológica está en riesgo de desaparecer por la rápida y progresiva liquidación de sus condiciones naturales de vida: el hombre.”

“Es necesario señalar que las sociedades de consumo son las responsables fundamentales de la atroz destrucción del medio ambiente. Ellas nacieron de las antiguas metrópolis coloniales y de políticas imperiales que, a su vez, engendraron el atraso y la pobreza que hoy azotan a la inmensa mayoría de la humanidad.”

“No es posible culpar de esto a los países del Tercer Mundo, colonias ayer, naciones explotadas y saqueadas hoy por un orden económico mundial injusto.”

“El intercambio desigual, el proteccionismo y la deuda externa agreden la ecología y propician la destrucción del medio ambiente.”

“Mañana será demasiado tarde para hacer lo que debimos haber hecho hace mucho tiempo.”

Não somos nós, brasileiros, os culpados pelo início do problema amazônico. Foram eles, de fora do Brasil, que trouxeram projetos faraônicos para aquela região.

Foi Henry Ford na produção de borracha, em 1927; foi Daniel Ludwig, 50 anos mais tarde, no Projeto Jari, voltado para extração de celulose e da madeira; foi a “Volkswagem”, com gado, na década de 1970, todos redundando em imensos fracassos e graves danos ecológicos com a devastação de dois milhões de hectares de florestas.

Volto ao nosso brasileiro Josué de Castro com o livro “Geografia da fome”, e indago: O que foi feito pelo Brasil por esses países ao longo da nossa historia? Se queriam evitar nossos desequilíbrios, que visitassem o interior do nosso Nordeste sofrido e empobrecido. Viagens reais à Amazônia apenas significam que estão cumprindo o ditado de que os olhos dos donos é que fazem bem às empresas.

É lá, da nossa Amazonia, que eles tiram suas riquezas. Em entrevista, o líder do MST João Pedro Stédile diz que é a Noruega que paga os seus advogados. Uma pena! Se esses países desejassem o bem do Brasil, tais recursos poderiam ser, todos, destinados a minimizar nossa pobreza e não aumentar nossos conflitos ideológicos.

Por que as ONGs estão concentradas na Amazônia? A região, sua floresta e seu povo devem ser cuidados por brasileiros. Respeitem nossa soberania. Temos consciência e competência para defender nossas riquezas, que, orgulhosamente, estampamos em nosso pavilhão nacional.

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