terça, 19 de março de 2019

Roberto Cavalcanti
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Veraneio

07 de março de 2019
Confesso que sou conservador e constante. Não é fácil remover-me do cotidiano, apegado que sou a hábitos e locais. Eis que ao longo de 72 veraneios em minha vida, surge algo impactante.

No passado, como não poderia deixar de ser, tive os mais diversos e variados veraneios. Chamo de veraneio brasileiro esse período que, na prática, vai do Natal até o Carnaval, prolongado ao início de março.

Acompanhei, de longe, ao longo de uns três anos, sem direito a pitaco algum, minha mulher conceber, escolher terreno, projetar um prédio, optar por uma das unidades Nascente/Nordeste, acompanhar sua construção nos mínimos detalhes, decorar, equipar de tudo o que é possível, e com o fruto do seu trabalho, pagar integralmente todos estes custos.

A mim coube apenas ser marido-convidado a usufruir desse sonho. Coisa dos deuses!

Estava eu, pela primeira vez, dirigindo-me a esse ninho por ela sonhado, quando na garagem do prédio onde moro, em Intermares, Cabedelo, encontrei um querido vizinho, amigo de muitos anos.

- Estou indo neste momento para um veraneio ilógico. Estou de mudança, levando as roupas do corpo, para apenas 4 Km daqui. Vou para um apartamento em Camboinha – comentei.

Com seu humor encantador, saudando-me como de hábito, respondeu:

- Bob, é tudo totalmente diferente. Você vai ver. Meu caso é ainda mais incrível que o seu. Também estou indo hoje para o meu veraneio. Só que 1 km mais perto que o seu. Vou para o Poço. É tudo totalmente diferente. Você vai ver.

Com trabalho zero, custo zero e com aquele estímulo, parti. Tudo tinha sido bem tramado para dar certo, mínimos detalhes concebidos pra acolher toda a família.

Dominando o projeto desde o início, minha mulher, arquiteta, teve cuidados especiais. Um cantinho para cada coisa, uma suíte [camarote de navio] para cada um. Uma gigante mesa redonda, para de uma só vez integrar todos nós. Nada de individualismos, todos juntos, sempre nas mesmas horas e em todos os momentos.

Foram 70 dias de muitas conversas, de muitas revelações. Todos enriquecemos, do neto - no auge da sua evolução e descobertas da vida aos tenros 10 meses -, até a matriarca sogrinha, com sua vitalidade redobrada e suas experiências relatadas.

Um cotidiano totalmente diferente: ajuste perfeito à tábua de marés acompanhada dia a dia, aliado à previsão e análise do tempo, adequando tudo isso as missões profissionais de uma agenda ocupadíssima, pois não estava em férias.

Algo de mágico realmente acontece. Estava certo o meu amigo.

“Cabeça é tudo no ser humano”, já dizia meu pai psiquiatra. Mesmo município, mesmas praias, mesma distancia da beira-mar. Tudo isso me fez comparar a cenários de um teatro: mesmo palco, mesmos atores, mas com personagens diferentes as coisas se transformam de um momento para outro. Magia, sim! Boa magia de um novo clima psicológico.

Recebi e fui recebido por amigos de quem a falsa falta de tempo tanto nos afasta. Recuperei a intimidade de um ex-funcionário, por anos a mim dedicado, hoje sócio do genro em um ponto comercial à beira-mar, na exata esquina do nosso prédio. Coisa do destino! Senti-me protegido e cuidado.

Caminhadas diárias na direção para a qual o destino nos atraia - Norte ou Sul. Decisão tomada à beira-mar, com lógica porém sem compromisso. Como nas nossas vidas, cada dia é um dia. Como na natureza, tudo se renova a cada momento. Não existe um dia igual ao outro. Tudo muda: mar, tempo, céu, vento... nesse fascinante mundo em que vivemos.

Retorno após as vivências de tantos sonhos, materializados por uma decisão pessoal, que não foi minha, de integrar a família. Hoje, dia de branco como se falava ao tempo do meu avô - sempre impecavelmente vestido em puro linho braspérola - volto aos braços do cotidiano, ao meu verdadeiro dia a dia que tanto amo.

Volto ao meu cantinho, ao meu ninho básico, tendo para conforto e alegria da mente a certeza de ter, agora e sempre, o nosso ninho de verão.

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