sexta, 19 de abril de 2019

Roberto Cavalcanti
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Trólebus

14 de março de 2019
Como recifense, ouço o nome com saudosismo. Está registrado nas memórias da minha vida. Sou de antes dos ônibus elétricos do meu Recife. Convivi com os bondes elétricos que trafegavam em Boa Viagem e no parque Amorim, onde estudava.

Aqui no Brasil, bondes são registros do passado. No primeiro mundo estão presentes até os dias de hoje. Em Portugal, são chamados sempre “eléctricos”.

Volto aos “trolleybuses” – a denominação mais comum pelo mundo – adquiridos pela Companhia de Transportes Urbanos (CTU), ligada à Prefeitura do Recife, com frota inicial de 65 veículos importados da empresa Marmon Herrington/Westinghouse em Indianápolis, EUA.

Os serviços para a população foram inaugurados ao final de 1959, justos 60 anos atrás. Diferentemente dos bondes, não exigiam trilhos, apenas as linhas elétricas aéreas ao longo dos percursos predeterminados.

O sucesso foi total, tendo a cidade sido servida por um tempo por mais de 140 veículos, alguns dos quais já produzidos no Brasil pela Caio/Scania/Villares.

Econômicos, silenciosos, construídos em alumínio, ecologicamente perfeitos e duráveis, eram a modernidade em uma época na qual o respeito ambiental era ignorado. Surgiu antes do apelo da poluição.

Após 30 anos sofrendo todo tipo de boicotes inerentes a uma empresa municipal, o sistema resistia. Foi desativado logo após a privatização da CTU. Nunca entendi. Coisa da política e de interesses de grupos de fornecedores do segmento de transportes, à época, em Recife.

Próximo à virada de 2018, tive o privilégio de conversar longamente com iluminado empresário do setor. Ao discorrermos sobre fontes alternativas de energia, especificamente a fotovoltaica, tanto em moda nos dias de hoje, chegamos aos veículos elétricos.

Esse empresário, com os olhos brilhantes, me dizia que finalmente estava vendo, para futuro próximo, uma luz ao fim do túnel para um setor que tem tido muitos problemas em razão da atual baixa rentabilidade.

Afirmava que seu maior custo era exatamente com o combustível, especificamente o óleo diesel. Sonhava, por incrível que pareça, com o retorno aos meus ônibus elétricos. Não os do Recife, escravos de linhas aéreas elétricas e com os constantes descarrilamentos das duas hastes que as conectavam. Mas um novo ônibus elétrico, com tecnologia atual à luz da evolução das baterias.

Ao final deste último fevereiro, li matéria, para minha alegria e sem nenhum interesse pessoal em jogo, anunciando que o futuro chegou: “Moura tropicaliza bateria de lítio para ônibus urbanos”, era a manchete.

A indústria “Moura”, genuinamente pernambucana, líder do setor, fechou parceria com a americana “XALT Energy” para em conjunto viabilizarem a nacionalização das baterias de lítio. Em uma operação conjunta, o fabricante de ônibus elétricos “Elebra” passará a adquirir os produtos da Moura, evitando importações e viabilizando a operação.

A produção nacional desse tipo de veículo tende a acontecer antes mesmo do que a de automóveis elétricos/híbridos. Existe uma razão para isso: além do interesse com redução de custos para as empresas de transportes, eles acreditam na demanda por frotas limpas.

Brevemente, as licitações de transportes públicos no Brasil exigirão regras que estabeleçam redução de 50% de dióxido de carbono em 10 anos, e 100% em 20 anos. Muitos países do mundo estão banindo os veículos com propulsão a diesel, vilões da poluição, de circulação em suas cidades.

É a volta ao tempo de Roberto, ao tempo dos ônibus elétricos. Viva o retorno à sensatez do meu tempo. Essa tecnologia jamais deveria ter sido abandonada. Com a mudança, contribuiremos com a redução dos danos ao meio ambiente e viabilizaremos um setor economicamente vital para nossa população. Não tem porque dar errado.

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