domingo, 19 de maio de 2019

Roberto Cavalcanti
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Tributo

31 de janeiro de 2019
Hoje me atenho a um tributo, o da homenagem. Jamais aquele outro sentido, o valor que se deve ao estado, ao poder público, taxa obrigatória paga pelos cidadãos ao estado, imposto. Quero, sim, o bom sentido, a ação de homenagear, de consagrar.

Faço hoje um tributo a um grande amigo: “Doutor Hildon”, como era chamado por todos.

Ao chegar à Paraíba, procurei me relacionar com os líderes do setor industrial ao qual eu pertencia, dentre eles Hildon. Obrigatoriamente, tinha que reconhecer a minha insignificância. A desproporção era grande em se tratando de um dos líderes do grupo Soares de Oliveira, que mantém há décadas a tradição de ser reconhecido como o mais sólido grupo empresarial do nosso estado.

Lá se vão quase 50 anos de relacionamento.

Em meu percurso de vida, eis que fui bater em um apartamento de propriedade do referido grupo, e mais, tinha Hildon como um dos seus moradores. Coisas do bom destino.

Talvez, tudo tramasse para um distanciamento estratégico entre locador e locatário. Qual nada! Fomos todos encantados com uma magistral convivência. Formaram-se, como nunca antes visto, sólidas amizades.

Lá na frente, os cavalheiros dessa Távola se dispersaram ao longo do tempo, por força da vida e por opções profissionais. O incrível é que jamais foi dissolvida a força da amizade que nos uniu.

Elejo em minha vida referências, sejam lá os motivos. É coisa de sentimento, energia positiva, e Hildon era uma dessas minhas referências. Sua força interior, sua extrema capacidade de conviver em grupo me encantava.

Não posso negar que me divertia com seu apurado senso crítico, temido por muitos. Como era seu amigo, e a principio não me enquadrava em seu modelo de crítica, escapava!

Em um tempo, acompanhei sua reconstrução sentimental. Sou testemunha do carinho imensurável que sua companheira de vida lhe dedicou na saúde e na doença. Na discrição recíproca que mantínhamos na nossa amizade, nunca fomos confidentes, porém, em fases da minha vida que necessitei de suporte, tive o aconselhamento inconteste dele.

Tentei, à medida do possível, estar presente nos raros momentos em que percebi que poderia lhe proporcionar com minha presença algum conforto.

Sendo empreendedores, trocávamos ideias sobre negócios, oportunidades, futuro econômico do nosso país.

Confesso que aprendi muito com ele. Na elegância da nossa amizade, jamais projetamos algum negócio conjunto.

Talvez, o segredo da longevidade dessa amizade tenha sido exatamente por ser “de graça”.

Observei de forma acurada o perfil de seus outros amigos e percebi que essa era a fórmula mágica. Amigos, amigos, negócios à parte.

Como amigo, acompanhei os seus últimos quatro anos de vida. Outra grande lição de vida! Jamais o assisti se referir de sua saúde em forma de lamento. Discreto, obtinha informações superficiais sobre o domínio da enfermidade que o acompanhava.

Mais recentemente, percebia as suas dificuldades físicas, nada que impedisse o seu cotidiano social. Seus hábitos de vida eram imutáveis. Quisesse alguém saber se hoje era um sábado? Bastava ir ao Restaurante Gulliver à noite para jantar. Se lá ele não estivesse, acompanhado do seu supergrande amigo, é porque não era sábado ou estaria viajando.

Por fim, registro que todo amigo tem de forma pessoal algo que o torna marcante, inconfundível, especial. É comum da natureza humana você admirar algo em outra pessoa que você não é, mas gostaria de ser ou ter.

Como não sou afeito a desejar coisas materiais, Hildon tinha um dom o qual gostaria muito de ter.

Confesso não ser afeito a uma gargalhada, admiro quem tem este dom. Não me lembro ao longo de sete décadas ter dado uma boa gargalhada. Não é que não me sinta muito feliz, simplesmente não dou. Admiro quem dá!

Ao ter a notícia de sua morte, me restou a saudade de suas gargalhadas que invadiam os ambientes que frequentava. Hoje, rendo o meu tributo às mais lindas gargalhadas que recebi de presente gratuito dele.

Agora, nos restam o silêncio e o vazio no coração.

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