sábado, 24 de outubro de 2020


Roberto Cavalcanti
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Trabalho

23 de janeiro de 2020
Por vezes, questiono-me sobre os chamados “workaholic”, em uma tradução simplória, pessoas que se embebedam com o trabalho. Tal sentimento ou ação comportamental é por demais recorrente no mundo empresarial.

Muitos afirmam que tudo é fruto de uma paixão como elemento diferenciador. Não vou adentrar ao mundo das paixões por ser ele muito perigoso e por ter em mim um campo de provas infinito.

Falo do elemento diferenciador que faz com que muitos trabalhem horas e horas em uma atividade e aleguem que não se cansam.

Costumo inquirir os adeptos desse mundo comportamental e obtenho sempre como uma das respostas: Quando se trabalha com o que se ama não há cansaço. Seria um desfrutar de algo que você gosta.

O que para alguns soa como labuta, para esses apaixonados pelo trabalho, na verdade, é um alento. Um sonífero para os que sonham com um bom sono. É dormir acordado, é como meditar laborando.

Não se pode julgar o comportamento de cada um à luz da sua própria cabeça. Cada um no seu modelo, no seu ritmo. Meus pais alegavam um certo cansaço em me ver permanentemente ligado ao trabalho, meu ritmo era cansativo para eles. Para mim, um sedativo em vida.

Assisto, no meu entorno, a uma tribo familiar ou agregada que trabalha mais de 12 horas por dia por opção própria. Será que seriam felizes ao trabalhar a metade desse tempo? Digo que não. Afirmo que existem nesses casos sentimentos que partem de dentro de cada um.

É como uma força interior que lhes constrangem em agir de forma diferente. Para os “workaholic”, os não seguidores desse comportamento são a expressão, a imagem da fadiga, do cansaço.

Sempre questiono os não adeptos sobre os resultados do trabalho supostamente cansativo. Questiono até as alegações de que você estaria trabalhando mais para obter os mesmos resultados. Como um excesso desnecessário e não produtivo.

Viva mais a vida! Trabalhe menos! Sou, por vezes, instigado a agir de forma supostamente mais inteligente.

Li uma definição que, para mim, expressa o que é trabalhar em um “neg-ócio”. Viria da origem da palavra: “Negar o ócio”. Encanto-me em apaixonar-me por um trabalho. Fascino-me assistir aos que assim procedem.

Reconheço que todo o trabalho tem uma série de atividades que não são apaixonantes; que viver unicamente para o trabalho lhe faz perder bons momentos da vida com outras atividades fascinantes; que imperceptivelmente você estaria adentrando em um mundo do estresse, razão maior de muitas enfermidades.

Sempre vivi o dilema da dosimetria, a paixão pelo trabalho e a não mediocridade de viver somente para ele.

Como me posicionar para ser um “workaholic” inteligente? Eis que leio matéria com o seguinte título: “Trabalho traz mais satisfação que as conquistas pessoais”.

Fruto de uma pesquisa com mais de 500 executivos do alto escalão realizada nos últimos dias de 2019, pela consultora Betânia Tanure, buscava-se identificar um grande descompasso existente hoje entre o lado pessoal e o profissional.

No trabalho fica registrado o reconhecimento que permite de forma concreta obter-se promoções e recompensas financeiras. Diz o texto: “Já as questões familiares e de relacionamento já são bem mais complexas, pois requerem um tempo de qualidade para formação de relações mais fortes. Só cinco minutos por dia com o filho não vai ser suficiente para criar vínculo afetivo e trazer satisfação imediata e concreta como o trabalho pode oferecer”.

A pesquisa chega a uma evidência inesperada. “Para 70% dos entrevistados, o que traz mais satisfação na vida é a conquista de metas no trabalho, enquanto a convivência com familiares fica em 67% para as mulheres e em 68% para os homens”.

Em relação ao tempo disponível para si próprio, ninguém parece satisfeito. Apenas 33% das mulheres e 28% dos homens dizem ter espaço na agenda.

Hoje essa realidade se transforma em um dos maiores temores em relação à vida: o desequilíbrio entre o lado pessoal e o profissional.

Amanhã, sexta-feira, vou me dar um feriado. Compromissos zero com a minha agenda. Irei ao meu mar, com filhos e netos. Uma ressalva apenas: Não vou parar de trabalhar.