sábado, 24 de outubro de 2020


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Sobre perdoar

13 de julho de 2020
Esse texto é de autoria de Fernando Perrone
“Ninguém acha que delinquiu mais do que o razoável”. Montaigne. Perdão é a ação de se livrar de uma culpa. Para tanto, é necessário o arrependimento sincero pela falta cometida. Pressupõe o entendimento de que o que foi feito não deveria ter sido feito. É um ato de contrição.

Em sua coluna no O Globo, ontem, Ascânio Seleme defende a necessidade política de se perdoar o PT. Entre outros argumentos, afirma que parte considerável do Brasil é de esquerda e que não há tempo para esperar por uma esquerda renovada e livre da sua influência. Logo, urge perdoar o PT.

Em política é frequente a formação de alianças para perseguir objetivos comuns, de coligações de partidos, de frentes multipartidárias ou suprapartidárias para enfrentar ou defender grandes causas. Quando se trata de virar a página de uma época que se encerrou, pode acontecer a anistia. O perdão proposto, além de novidade, não traz qualquer resultado prático.

Questão relevante e precedente é: o PT quer ser perdoado? Ou melhor: o PT acha que há o que perdoar? Para que o perdão tivesse algum sentido seria necessário o reconhecimento dos crimes e dos erros cometidos, do arrependimento sincero e de um pedido formal de desculpas à sociedade e em especial à esquerda. A tão cobrada autocrítica.

Recentemente políticos de diferentes partidos, alguns adversários históricos, uniram-se na defesa da democracia. Lula não aceitou sentar ao lado deles. A tentativa de formar uma frente ampla tem sido rejeitada pelo PT, o que remete ao seu DNA. A arrogância, a índole autoritária e a crença de que tem o monopólio das boas intenções.

Entender e aceitar que a esquerda tem relevância e importante papel na cena política não implica admitir que o PT é o seu único representante possível. Ao contrário, o PT pode ser visto como a barreira que impede a representação política da esquerda democrática e não sectária.