sábado, 17 de agosto de 2019

Roberto Cavalcanti
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Sanguessugas

19 de maio de 2019
Ao ler a manchete “Lucro dos bancos cresce quase 20% no início do ano”, tomei um susto. Aprofundei-me no texto e constatei que não era fake. Os quatro grandes bancos de capital aberto – Itaú Unibanco, Banco do Brasil, Bradesco e Santander – tiveram lucro líquido combinado de R$ 20,847 bilhões no primeiro trimestre deste ano, cifra 19,8% superior à registrada no mesmo período em 2018.

Tenho como princípio torcer por todos, haja vista que estamos economicamente embalados em um mesmo pacote chamado Brasil. Colhendo declarações do presidente do Bradesco, Octavio de Lazari Junior, vejo que estava certa a manchete sobre tão fantástico lucro e do surpreendente crescimento 19,8%, em uma economia nacional recessiva.

Afirmou ele que “o trimestre não foi exatamente o que gostaríamos e prevíamos quando fizemos o orçamento. A recuperação está mais fraca do que o esperado”.

Todos os bancos sinalizaram que esperavam ter feito ainda mais, não fosse o desempenho da economia, que decepcionou, atrasando uma retomada mais forte.

O presidente do Banco do Brasil, Rubem Novaes, afirmou que “vamos ter um quadro diferente do atual a partir do momento que fizermos as reformas”. Disse ainda: “A expectativa é que a economia comece a se recuperar no segundo semestre, ajudando o banco a chegar aos resultados”.

Constatando que estávamos falando uma mesma língua e vivendo no mesmo País, verifico que desaprendi teses básicas de economia. Algo de muito estranho ocorre em nosso Brasil. Apenas um segmento está, durante anos, obtendo crescimento em seus lucros fora da curva padrão da economia do País.

Fica fácil de entender quando analisamos que eles se beneficiam da tese do quanto pior melhor. Com um nível de desemprego nunca antes visto, com a classe empresarial em sua grande maioria prestes a sucumbir em uma crise econômica sem precedentes, alguém tira vantagens da desgraça. É a matemática financeira! Quando alguém ganha, e muito, de um lado, o outro lado perde.

Recebi de uma operadora de cartões de crédito, ligada a um desses megabancos, uma oferta irrecusável. “Aproveite”, dizia ela. “Parcele o seu cartão com a taxa mensal de apenas 9,40%”. Mensal, alerto.

Pobre povo brasileiro que, para sobreviver, se submete a pagar uma taxa de juros mensal com um percentual que, em qualquer outro país do mundo, não seria cobrado ao ano.

De torcedor, passo a ser vítima de um política econômica que inviabiliza a sobrevivência dos empresários e da população como um todo. Perdemos a noção do sério. É inaceitável admitirmos, governo após governo, complacentes com um segmento econômico que obtêm lucros fantásticos em uma economia paralisada.

Não tenho olho grande nos lucros de quem quer que seja, porém não posso calar diante de uma distorção como essa. Para colocar o título do presente artigo, conversava com um companheiro que de pronto o batizou: “sanguessugas”.

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