sexta, 20 de setembro de 2019

Roberto Cavalcanti
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Relatividade

08 de agosto de 2019
Ao cumprimentar meu amigo Alexandre Jubert pelo nascimento do seu filho Breno, no dia 29 de julho, saudei-o nos seguintes termos: “Que bom ele ter nascido ainda em julho. Não gosto de agosto”.

Reconheço que não fui feliz na ressalva. Tenho uma montanha de amigos nascidos no mês oito, dentre eles a própria mãe do recém-nascido. Pequei ainda por não lembrar ser o mês do aniversário da minha permanente tutora, a competente secretaria Dona Guia.

Como não há lógica em superstições, vamos aos fatos. Viajo no meu mundo para lembrar de onde vem esse sentimento antiagosto. Recordo-me da forte influência da minha mãe, que, tendo perdido vários familiares nesse exato mês, trazia dentro de si ojeriza por esse período do ano.

Repetia, desde a minha infância, que “agosto é o mês do desgosto”. Lembrava ainda que 24 de agosto é o exato dia em que “o diabo está solto”. Reforçava, para confirmar sua crendice, que até Getúlio Vargas teria se matado nessa data. Coincidências da vida.

Fui buscar explicações no calendário gregoriano e encontrei apenas que será - o 24 de agosto - o 236° dia do ano, e que faltarão apenas 129 dias para acabar o superrápido ano de 2019.

É também o dia de São Bartolomeu. Epa! Foi também o dia em que as cidades romanas de Pompeia e Herculano foram destruídas pela erupção do vulcão Vesúvio.

Não esquecer o “massacre da noite de São Bartolomeu”, em Paris, em 1572, quando protestantes foram mortos por católicos. Antes, em 51 d.C., houve a morte, por esfolamento, do referido Santo.

Nos países latinos, é o “mês das desgraças e infelicidades”. Volto ao título. Tudo na vida é relativo! Está apenas na cabeça otimista ou pessimista de cada um administrar os fatos da vida.

Na minha viagem pessoal, nada tenho contra agosto. Muito pelo contrário. Na minha infância, dada a intensidade dos ventos nesse mês, foram todos os anos o que mais me aproximava do meu querido tio Zé, para construir e empinar os nossos “papagaios” de outrora, agora chamados modernamente de “pipas”.

No lindo amanhecer de sol desse Estado de tantas belezas, tinha muito a agradecer a Deus pelos meus agostos, especificamente o desse ano. Justo no suposto “mês do desgosto”, tive nas últimas 24 horas várias demonstrações da sua presença positiva em mim.

Em menos de 12 horas, meu neto, Roberto, foi diagnosticado e positivamente cirurgiado de uma crise relâmpago de apendicite aguda. No brilho dos seus 16 anos, muito fácil ultrapassar por essa barreira, fosse apenas ela. Ocorre que a mão divina fez tal fato acontecer a poucos dias de uma viagem de estudos. Não posso imaginar, sem ser grato a Deus, por tudo ter ocorrido onde pode contar com o apoio de toda a família, no Brasil e na Paraíba de tantos amigos.

Nos Estados Unidos, sozinho, tudo poderia ter sido diferente. Com o apoio de Nossa Senhora das Neves, “a Santa e o Hospital”, estou, apenas poucas horas após, comemorando o que poderia ter sido negativo nesse tão especulado agosto.

Como sempre, ao contemplar o nascer do dia, me vi confirmando a violência dos ventos. Essa força própria dos meses de agosto me permitiu visualizar um casal de carcarás gigantes, que voavam em planeio constante.

O balé delicado e sensual, só possível em razão dos fortes ventos, dispensava o bater das asas. E eles deslizavam lindamente no meu espaço aéreo.

Que bom assistir ao desfrutar desse agosto; que enriquecedor o sentido de gratidão a Deus e a todos por ter ultrapassado um momento difícil. Tudo é relativo nos agostos da vida.

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