segunda, 14 de outubro de 2019

Roberto Cavalcanti
Compartilhar:

Referências

10 de outubro de 2019
Recupero o texto de exatos quatro anos, publicado no Correio do domingo 11 de outubro de 2015, sob o título “Faça amor, não faça a guerra”.

“Quem sabia dessa história já não está mais aqui (meu pai René, minha mãe Beatriz, minha irmã Celina). E acho que foi para que este capítulo da minha vida – o primeiro, para ser exato – não se perca, que hoje rebobino meu tempo.

Vamos voltar a 1945. Mais exatamente ao dia 15 de agosto. Era uma quarta-feira quando milhões de pessoas comemoraram a rendição do Japão – o último ato militar da Segunda Guerra Mundial.

O casal René e Beatriz também se alegrou. E tinha bons motivos para isso: meu pai, oficial da reserva, estava na iminência de embarcar para reforçar as tropas aliadas.

A rendição japonesa – a Alemanha de Hitler já havia se rendido em maio daquele mesmo ano - foi o ponto final de uma guerra que provocou milhões de mortos e feridos, destruição de cidades inteiras e dívidas incalculáveis.

Naquela noite, no bairro do Derby, em Recife, René e Beatriz terminaram aquele 15 de agosto tão festivo fazendo amor e não a guerra - exatamente como fizeram (imagino) tantos outros casais espalhados pelos países aliados, verdadeiros precursores do slogan que se popularizaria nas décadas de 60/70 com Lennon e Yoko Ono. Eu nasci nove meses depois, em 5 de maio de 46 – um verdadeiro filho do pós-guerra, resultado da comemoração.

Certamente também foi desse modo festivo que o casal formado pelo oficial da Aeronáutica Saliture e sua esposa Helena terminaram aquele dia.

Nove meses depois, nascia seu filho Abraão Saliture Neto – na mesma maternidade que eu. Somos amigos até hoje (a mais longa amizade de minha vida).

Não sei se os pais de Abraão planejaram seu nascimento. Lá em casa, porém, minha vinda foi uma falha da tabela – o único método contraceptivo da época”.

Mantive, com aplicação e carinho, essa longeva amizade até o amanhecer do domingo, 6 de outubro de 2019. Recebi da minha amiga Cecília uma mensagem de WhatsApp: “Infelizmente, Abraão faleceu às 7h42. Estou no hospital para resolver as coisas. Marcos, o Fernando e a Taciane já estão aqui”.

Era o ponto final na minha mais longa amizade. Sempre o tratei como “meu primeiro amigo”. Participamos, mesmo a distância, de fatos marcantes em nossas vidas. Ele morando no Rio de Janeiro, eu hóspede no apartamento dos seus pais, fui testemunha do seu primeiro encontro com a paulista Cecília. Estávamos em pleno verão de 1966. Dois jovens, que aos 20 anos buscavam, profissionalmente e sentimentalmente, trilhar seus destinos.

Amor à primeira vista, resultou na fixação dele naquela cidade. Em minhas idas relâmpagos a São Paulo sempre procurava um espaço para contatá-lo.

Assim, de pedaço em pedaço, construímos sem presença ou cobranças uma sólida amizade. Durante toda minha vida sempre busquei boas raízes nas minhas amizades. Cultuo, sempre, qualitativamente as minhas. Costumo dizer que sou um colecionador de amigos. Perdi a primeira peça.

Perco mais uma referência em minha vida. Hoje, tenho que abraçar os que aqui estão. Peço a todos os meus que se cuidem. Estou no meu limite de resistência.

Relacionadas