terça, 20 de outubro de 2020


Roberto Cavalcanti
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R.C.R. Digital

28 de março de 2020
Nada como uma guerra para precipitar e acelerar adaptações. Todos que comigo convivem sabem que busco sempre não ficar totalmente obsoleto. Porém, não sou um Roberto digital. Cito como exemplo a minha cotidiana missão de por mais de uma década, duas vezes por semana, escrever estas linhas.

Parto sempre de um texto manuscrito de caneta vermelha em um bloco pautado. Tudo já se tornou um hábito tão forte e automático que se incorporou aos meus mecanismos cerebrais.

A etapa seguinte é digitá-lo para que o mesmo possa adequar-se ao espaço que disponho dentro dos padrões de máximo e mínimo em número de caracteres.

Sigo então adiante nas correções. Confesso que ainda sou míope ao ler os textos em visores de celulares ou computadores.

Logo após digitado, chega a mim impresso em papel o recém elaborado texto e só aí meu foco visual consegue detectar erros, deslizes e inadequações.

Tinha sempre a mesma dificuldade ao visualizar edições de jornais de circulação nacional, as quais, por necessidade de logística de entrega, leio-as diariamente digitalmente.

Hoje reconheço que aguardar a chegada das edições impressas as tornam obsoletas, defasadas no tempo em um mundo imediatista.

Eis que surge de forma inesperada essa guerra viral que tem nome, sobrenome e origem.

Já estava no Sudeste Asiático quando foi oficializada a sua propagação pelo mundo afora. Embarquei no dia 12 de fevereiro não tendo uma noção exata das suas proporções.

Perceberia a cada novo aeroporto em que desembarcava sinais da crescente preocupação mundial com essa virose.

Temos que lembrar que oficialmente a China só veio a declarar o fechamento à circulação de algumas de suas áreas geográficas em 17 de janeiro.

Dia 20 teríamos a oficialização da gravidade que há época restringia-se as áreas da própria China. Em 30/01 a O.M.S. declara alerta mundial emergencial.

Como não iria à China, o alerta para mim soou de forma suave. Tudo comprado e pago, lá estava eu. Durante todo o mês de fevereiro, mundialmente, assistíamos notícias do agravamento. Até que só em 11 de março, finalmente, a O.M.S. declararia a “pandemia” de forma oficial.

Eu já estava de volta são e salvo. Pensava que passaria os 14/15 dias de uma quarentena preventiva (04 de março a 19 de março) e tudo estaria resolvido.

O mundo mudou, o Brasil paralisou, a Paraíba me confinou. Dia 18, o Estado publica um decreto de calamidade pública tornando a minha mobilidade totalmente comprometida.

Não atinge apenas o cidadão Roberto, dentro da faixa de risco máximo, atinge a todos.

Sou impactado com uma prisão domiciliar compulsória, sem ter culpa alguma no cartório.  Todos os meus hábitos, como os dos demais cidadãos, são atingidos, a bem da coletividade.

Ilhado, assisto a desagregação econômica causada em razão de medidas emergenciais necessárias.

Recorro agora, a contragosto, a todos os instrumentos digitais disponíveis. Volto a Lei de Darwin. Estou sendo obrigado a participar dessa guerra como soldado não fisicamente, porém, de forma digital.

Uma novidade para mim. É a vida!

Roberto Cavalcanti.

Empresário, diretor da CNI e membro da APL