domingo, 27 de maio de 2018

Roberto Cavalcanti
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Que falta ele faz

22 de Abril de 2018
Sendo empresário e atuando há mais de três décadas na área de comunicação, tive muitas oportunidades de conviver com grandes políticos da Paraíba. Digo que nenhum faz tanta falta neste momento do Brasil e da Paraíba como Humberto Lucena.

Se estivesse entre nós, hoje estaria completando 90 anos. Mas, há 20 anos foi para o andar superior, deixando uma lacuna que não foi preenchida na política: a do líder conciliador, que não se achava maior do que tudo e todos.

E ele tinha “pedigree”. Seu avô, Sólon de Lucena, governou a Paraíba por alguns meses de 1916, e depois, de 1920 a 1924. Epitácio Pessoa, que presidiu o Brasil entre 1919 e 1922, era primo de seu pai, Severino de Albuquerque Lucena, que foi deputado estadual.

Quem pensa que suceder é fácil, não avaliou todos os ângulos. O peso das expectativas e a necessidade de superação são para os fortes.

É importante registrar: na Nova República, nenhum outro paraibano conseguiu ocupar equivalentes espaços de poder e prestígio nacional: Humberto liderou seu partido na Câmara e no Senado concorrendo com grandes estrelas, foi presidente poderoso do Senado por dois mandatos, presidiu a Constituinte e a revisão da Carta Magna.

Ele só não conseguiu realizar o sonho de ser governador da Paraíba, e isso pelas características que lhe garantiram o comando do PMDB até sua morte: ser pacificador e priorizar a legenda.

Os fatos: em 1986, o Plano Cruzado congelou preços, baixou a inflação e projetou o PMDB. Era a chance de Humberto Lucena ser governador da Paraíba. Mas, as pesquisas apontavam o ex-governador e então deputado Tarcísio Burity como favorito. Para garantir a vitória do partido, filiou e cedeu a candidatura ao ex-adversário, disputando a reeleição.

Quem foi o outro que, na Paraíba, tendo o poder da decisão, abriu mão de espaço pessoal?

Ele fazia o oposto do que se faz hoje, quando o comum passou a ser o culto ao “eu”.

Não foi sem razão que Humberto atraiu para sua órbita estrelas da grandeza de João Agripino, Ronaldo Cunha Lima, Cícero Lucena, Antonio Mariz, José Maranhão e Roberto Paulino, que governaram a Paraíba, todos políticos com opinião e sem papas na língua.

Foi ele quem organizou o que, inegavelmente, foi o maior evento político da Paraíba: o comício das Diretas Já, na Lagoa, onde estavam Ulysses Guimarães, Tancredo Neves, Leonel Brizola, Teotônio Vilela, FHC, Dante de Oliveira, o então líder sindical Lula, e a cantora Fafá de Belém emocionando com o hino nacional.

Nos momentos de crise, os jornalistas esperavam Humberto Lucena, mas não na expectativa de que alimentasse um confronto, mas curiosos em relação a “solução” que iria anunciar para o problema.

Se estivesse vivo, teria existido o episódio do Campestre, que rachou o PMDB?

Não acredito. Aposto que teria reunido todos na residência de Haroldo Lucena, seu quartel-general, para uma longa conversa que terminaria com todos os interesses conciliados.

Por isso a falta que ele faz.

E agora eu sei que ele não era só um político admirável. Nas homenagens feitas pelo Senado Federal, descobri que também gostava de escrever, e produziu um livro de poesias. E como não existe poeta sem musas, as suas estão nele.

Pela importância que alcançou, virou igualmente personagem de livro.  Na coleção “Grandes vultos que honraram o Senado” um é sobre sua trajetória.

Foram feitas solenidades nos 20 anos de sua morte, e eu estava lá. Porém, o que gosto mesmo é de celebrar a vida. Esperei o dia do seu aniversário para homenageá-lo. E reconhecer: que falta ele faz.

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