domingo, 17 de novembro de 2019

Roberto Cavalcanti
Compartilhar:

Prazo de validade

05 de outubro de 2019
Em 1840, apenas 10% dos franceses tinham mais de 60 anos, e só passaram a 20% no final do século 20, passados 145 anos. No Brasil, vamos dobrar essa proporção em apenas 19 anos, ciclo que se completará em 2030.

Em apenas uma geração, daremos um salto que a França levou seis para concluir.

Que bom falar da França não necessariamente de forma conflitiva.

No dia a dia, cresce minha preocupação com um tema que não constava da minha agenda: sobrevivência. Vejo-me conectado a esse assunto de forma inteiramente nova. Vou em busca de dados estatísticos e de projeções para, na verdade, aferir o chamado prazo de validade, desta vez não a de produtos estocados e sim da minha suposta expectativa de vida.

No Brasil de hoje o tema é intensamente debatido por sua correlação com a reforma da Previdência. Vejam só: o que é danoso para a estrutura previdenciária brasileira, para mim é extremamente positivo.

Em 1980, portanto há pouco tempo, a expectativa de vida brasileira era de 62,5 anos, e em 2016 passou a ser 75,8 anos, ou seja, a cada três anos do calendário, avançou mais de um ano.

O momento é de torcer para escapar, e a cada mais três anos, comemorar a expectativa de ganho do bônus de mais um ano. Repito: o que para a Previdência é gravoso, para mim é comemoração.

O Brasil vai multiplicar por cinco sua população de idosos nos próximos 50 anos. Hoje, 14% da população é composta por esse grupo, percentual que era de aproximadamente 10% em 2011. Em síntese: cresce de forma substancial a parcela de nonagenários e centenários de acordo com o Anuário Estatístico da Previdência Social.

Hoje a Previdência brasileira abriga 5.301 beneficiários com mais de 100 anos de idade. Os nonagenários aposentados somavam 424.231 no ano de 2010. Já em 2017, o total de beneficiários com mais de 90 anos tinha subido para 632.975.

Ótima noticia para mim; péssima para a Previdência.

Um de meus orientadores, especialista em envelhecimento, Alexandre Kalache, doutor em Saúde Pública pela Universidade de Oxford e presidente do Centro Internacional de Longevidade, aponta duas pré-condições óbvias para o bom envelhecimento: ter saúde e nível educacional elevado.

Da saúde, cuido cotidianamente com boa alimentação e preparo físico. Quanto ao nível educacional, procuro treinar e estimular meus neurônios permanentemente. Escrever faz parte dessa ativação.

Apego-me muito a referências e testemunhos. Recentemente, ao confirmar algumas longevidades, tive o relato que a avó de Daniella Bandeira, secretária de Planejamento da Prefeitura de João Pessoa, estava com 100 anos, perfeitamente lúcida e saudável.

Tenho o meu amigo e guru Teotônio Neto, prestes a completar 101 anos; e a minha referência máxima, Dona Hermosa Sitônio, com 106 anos, baluarte da revolução de Princesa Isabel, que me recebe efusivamente nas comemorações de seus aniversários.

Constato e preocupo-me ao assistir cotidianamente o despreparo de alguns quanto às condições financeiras para enfrentamento da longevidade. É constrangedor ver amigos que não conseguem ter uma velhice digna. Não basta no mundo de hoje cuidar-se física e mentalmente. Faz-se necessário preparar-se financeiramente.

Com nosso sistema previdenciário à beira de um colapso, é inimaginável assistir a congressistas votarem contra a reforma da Previdência. É o populismo eleitoral, que, com certeza, distorce as suas mentes.

Estou a cada dia mais consciente de que devo fazer a minha parte para, investindo nos novos índices de expectativa de vida dos brasileiros, ficar junto dos que estarão batendo novos recordes.

Espero suavizar a curva de decadência que ilustra o jocoso mapa a mim enviado via modernas redes sociais (em destaque). Nada melhor que revalidar o meu prazo de validade colocando-me nas mãos de Deus.

Relacionadas