terça, 16 de julho de 2019

Roberto Cavalcanti
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Por quem chorar?

06 de setembro de 2018
Um dos mais rumorosos casos de corrupção do mundo, uma crise econômica sem precedentes, e, agora, um incêndio que destrói não apenas o mais antigo museu do Brasil, mas o que guardava os mais importantes registros de nossa história.

A bruxa está solta, e visita o nosso País acompanhada do gato de estimação e das amigas mais traquinas?

Não! No Brasil, colhemos o que plantamos: elegemos políticos sem os valores éticos para resistir às tentações; não reagimos com a rapidez e energia necessárias diante dos sinais da economia, impactada pela política; e entregamos a guarda dos nossos tesouros a quem mostrou não ter capacidade para tanto.

O incêndio que destruiu o Museu Nacional, no Rio de Janeiro, foi o que chamamos de tragédia anunciada. As condições do prédio foram mostradas em reportagens que advertiam para o perigo ao qual estavam submetidos cerca de 20 milhões de itens de áreas como arqueologia, zoologia, etnologia e geologia.

Entre os tesouros que o fogo do descaso, da irresponsabilidade e da desqualificação produziu, estava o fóssil de Luzia, com 12 mil anos, descoberta em Minas Gerais em 1974, e que provocou revisão sobre a história do povoamento da América do Sul.

Pelas redes sociais nos chegam informações que levam à constatação de que o abandono que destruiu o Museu Nacional, não foi caso único. A ignorância e a negligência causaram danos em outras importantes instituições.

O Instituto Butantã, que tem um dos maiores acervos vivos de cobras tropicais, aranhas e escorpiões do mundo, foi atingido em 2010. Em 2013, parte do Memorial da América Latina foi consumido pelas chamas.

Em 2015, perdemos para o fogo o Museu da Língua Portuguesa, cujo acervo, em sua maioria digital, foi destruído.

O Museu do Ipiranga, que conta a história da independência do Brasil, está fechado há 5 anos para reformas, e a previsão de reabertura é para 2022.

Esses fatos mostram que não se trata de uma crise momentânea, e sim do resultado do sistemático abandono de nossa memória.

E o custo desse desleixo é inestimável. No Museu Nacional, só para me deter apenas à área que atuo, desapareceram o primeiro jornal impresso no mundo, em 1601; a primeira edição da “Arte da gramática da língua portuguesa”, escrita pelo padre José de Anchieta em 1595; e os documentos da Lei Áurea.

O fogo também consumiu pergaminho datado do século XI com manuscritos em grego sobre os quatro Evangelhos, o exemplar mais antigo da Biblioteca Nacional e da América Latina. Também destruiu uma primeira edição de “Os Lusíadas”, de 1572.

Chora o mundo, chora o Brasil, choro eu.

Choro pela perda do maior museu do Brasil. Choro também por João Pessoa não ter nem ao menos um museu que resgate a nossa história. E só a Revolução de 30 já garantiria material e atrativos para o público.

É inaceitável o abandono da proposta de transformar a ex-casa de João Pessoa, na Praça da Independência, hoje em ruínas, em um local de resgate histórico.

Sem museus, não tive onde levar meus filhos. Hoje, décadas após, não tenho onde levar meus netos. Lamentável!

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