quarta, 17 de julho de 2019

Roberto Cavalcanti
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Perda de controle

20 de junho de 2019
Tenho, para com determinados temas, cuidados máximos. Controlo meus pensamentos e minhas palavras para não ser entendido de forma distorcida. Quando o assunto gravita em torno de movimentos sociais, qualquer que seja a sua conotação, tenho atenção redobrada.

Parto agora do princípio constitucional de que “todos os cidadãos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade”, conforme está no Art. 5° da Constituição Federal.

Nossa Carta Magna assegura ainda, no mesmo artigo, que “ninguém será obrigado a fazer ou deixar de fazer alguma coisa senão em virtude de lei” e que “é livre a locomoção no território nacional em tempo de paz”.

Logo, o direito de ir e vir, é um dos mais importantes a ser respeitado em uma convivência social. Falo em razão da forma crescente e incontrolada que ocorrem bloqueios de ruas, avenidas e rodovias.

Só agora me sinto confortável em abordar esse tema, haja vista no passado tal atitude ser exclusividade de atividades com cunho político-ideológico e partidário, sendo hoje totalmente abrangente.

No meu subconsciente, tais bloqueios tinham sempre uma origem predeterminada. Algum grupo protestava por razões pontuais, tendo, no fundo, alguma organização que os incitava a tais protestos.

Lembrem-se que ao longo dos meus vividos anos, passei por um Brasil multifacetado. Fui estudante secundarista em uma época que éramos usados como buchas de canhão. Estava na universidade no período de máximo confronto ideológico brasileiro (1966 a 1969).

Atuando profissionalmente em um Sistema de Comunicação desde 1979, nesses 40 anos de involução brasileira, já passei por tudo e assisti de tudo.

Qual a razão do meu conforto em questionar, agora, tais bloqueios? Testemunhei nos últimos dias movimentos espontâneos de comunidades que reivindicavam serem atendidas em razão dos danos provocados por um fenômeno da natureza - as chuvas.

Tivemos um período atípico, com maior precipitação pluviométrica que se tem notícia. Fomos todos atingidos de alguma forma. Foi a mãe natureza que deu a sua resposta.

Dentro de uma lógica matemática, como sempre os mais carentes foram os que sofreram mais danos. Tendo suas casas construídas com configuração mais frágil, em locais de risco, foram impactados de forma brutal.

Reconheço o desespero e a sensação de inoperância dos poderes públicos. Contudo, o que me faz questionar esse protesto é sua forma de buscar solução urgente para seus problemas.

Atacaram o direito de ir e vir de outros. Geraram danos imensuráveis quando de forma indiscriminada obstaculizaram, a fogo, o livre trânsito de veículos.

Minha constatação é de total perda de controle. Não se respeita mais nada nesse nosso País. A permissividade de bloqueios anteriores gerou na população a certeza que a agressão aos outros não será questionada, muito menos punida. A presença da Polícia é ignorada, de nada vale. O desrespeito ao poder constituído é total.

Não se questiona o dano ao patrimônio público, não se raciocina que ao bloquear uma rodovia estão impedindo que doentes consigam socorro médico; que gestantes prestes a darem a luz cheguem a uma maternidade; que gêneros perecíveis sejam destruídos; que seres humanos, com seus compromissos pessoais e profissionais a serem cumpridos, percam oportunidades.

É uma forma brutal e inconsequente de protesto. Você paga pelo que não fez. Repito: não abordava o tema pelo seu perigoso lado ideológico, com o qual não necessito mais me preocupar. Vulgarizaram o ‘modus operandi’.

Só me resta, nesse momento, protestar contra a forma de reivindicação. Sua violência e inconsequência. No mais, me solidarizar com o sofrimento dessas comunidades atingidas, que é verdadeiro, e liderar campanha de doações comandada pela Fundação Solidariedade, braço social do Sistema Correio, “Chuva de Solidariedade”.

Estamos ao menos fazendo a nossa parte. Façam a sua. Colaborem com a campanha.

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