quinta, 28 de janeiro de 2021


Hermes de Luna
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O novo normal da política dos prefeitos eleitos neste domingo

30 de novembro de 2020
A vitória da direita tradicional ficou estampada com a conclusão das eleições intermediárias no país, neste domingo (29). O eleitorado brasileiro retornou ao equilíbrio de forças desajustado entre os extremos, por conta da polarização que viu nas eleições gerais dois anos atrás. As eleições municipais foram duras com as esquerdas, mas ainda com o Partido dos Trabalhadores (PT) varrido do mapa político das capitais brasileiras. Desde 1985 que os petistas não deixam de abocanhar pelo menos uma capital. Ainda que apostassem as fichas em Recife (PE), como Marília Arraes, era uma bandeira muito trêmula para empunhar até 2022. O PSB frevou sobre a direção nacional petista, que não quis uma aliança ampla das duas legendas de esquerda por lá.

Estamos mais focados nas disputas da prefeituras municipais, mas é bom realçar que nas Câmaras de Vereadores assistimos uma renovação mais animadora, com uma diversidade que espelha melhor o tecido social. Em João Pessoa, apesar de eleita apenas uma vereadora - Eliza Virígina, que na verdade vai para um novo mandato - podemos assistir uma renovação interessante e o surgimento de novos nomes que podem se estabelecer no cenário político da Capital, que optou por ter um gestor dentro dessa linha de direita tradicional. O mesmo se viu em Campina Grande, com a eleição de Bruno Cunha Lima, que recebeu o bastão da mãos de Romero Rodrigues, e vai ter uma Câmara de Vereadores com uma bancada feminina muito mais forte, com sete eleitas e, entre elas, a primeira vereadora comunista da cidade, Jô Oliveira. Esse, sim, é um movimento do eleitorado para oxigenar o Legislativo.

O cenário se repete por grandes colégios, como Cajazeiras e Sousa, onde foram reeleitos José Aldemir e Fábio Tyrone; em Patos, que trouxe de volta a experiência de Nabor Wanderlei, deputado estadual que já passou duas vezes pelo comando da cidade; em Monteiro, com a prefeita Lorenza ganhando um voto de confinar do eleitorado para mais quatro anos; em Guarabira, com a eleição de Marcos Diogo, que herdou a prefeitura de Zenóbio Toscano; e até em Picuí, onde o único petista, Olivânio, foi reeleito ao cargo de prefeito. E curioso que foi justamente o único prefeito petista que protagonizou uma cena que causou ojeriza nos eleitores, ao sancionar, após o primeiro turno, uma lei aprovada na Câmara reajustando seu salário, do vice, dos vereadores e dos secretários municipais.

Por essas e por outras, o PT vem amargando dissabores eleitorais. Também por insistência burra de suas lideranças nacionais, que tentam a todo custo ressuscitar Luiz Inácio Lula da Silva. As esquerdas teriam que refazer suas rotas e seus planos de voos. Mesmo derrotados em segundo turno, nomes como Guilherme Boulos (do PSOL, em São Paulo) e Manuela D'Ávila (do PC do B, no Rio Grande do Sul) surgem como boas opções para renovar os quadros da esquerda. Caso haja a insistência com o nome de Lula para polarizar com Bolsonaro ou outro candidato da direita - seja dos extremos ou mais tradicional - fatalmente as chances serão reduzidas, isso se as eleições ocorrerem em condições normais de tempo e temperatura.

A esquerda, em dado momento do segundo turno, ficou atônita. Sua militância agregou um discurso de que teria que apoiar um candidato de direita em detrimento de outro, para carimbar o preterido como "bolsonarista". Apesar de todo o barulho nas redes sociais, ficou claro que não funcionou. Basta olhar para João Pessoa. Não foi essa histeria que impôs a derrota ao candidato do PT, Nilvan Ferreira. O desenho do segundo turno já se mostrava nessas formas, desde que a votação do primeiro turno foi concluída. Tanto é assim que houve aumento de votos nulos e das abstenções. As projeções indicavam uma vitória de Cícero Lucena em torno de 50 a 80 mil votos de diferença. O candidato do Progressistas (PP) foi vitorioso com 22 mil votos sobre peemedebista.

Cícero tinha em seu "palanque", além do próprio PP, o apoio do PSL na figura do deputado federal Julian Lemos, e o PRTB, do deputado estadual Eduardo Carneiro. Ou seja, o partido do Presidente e do vice-presidente da República. Além de outras siglas do famoso "Centrão", que estão na base de apoio de Bolsonaro. Nilvan, por sua vez, não fez aliança, só tinha o MDB e o seu vice, Major Milanez, também filiou-se ao MDB. Mas foi esse o candidato carimbado como "bolsonarista". O deputado Wallber Virgolono (Patriota) já vai ficado fora da disputa no primeiro turno e ele, sim, tinha a simpatia do presidente.

Concluídas as eleições municipais deste ano, ressurge a política tradicional. Candidatos anti-políticos foram rejeitados. O eleitorado voltou às pazes com os políticos tradicionais e experientes, mas eles têm que saber que é uma nova chance de provarem que renasceram após essa polarização das eleições gerais.  Eleições municipais não são decididas pelo discurso ideológico. Isso serve de lição para a extrema direita. É preciso convencer o eleitor que seus projetos são exequíveis, mesmo diante de situações de pandemia como essa que vivemos. Essa aposta no discurso ideológico, que fique bem claro, também foi uma pedra pesada que ajudou a afundar as candidaturas de esquerda.