segunda, 15 de julho de 2019

Renato Félix
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O discurso do filme

24 de outubro de 2018
A jornalista Tatiana Learth, uma amiga querida, confessou dia desses que assiste a um filme mais pela mensagem que “de um modo cinéfilo”. Então, os temas e como ele são tratados pelo filme são os pontos de interesse dela. Por outro lado, já ouvi pessoas reclamando da ética de alguns filmes por causa do discurso de um personagem (de machismo, racismo ou o que for).

Aí, é preciso refletir e um pouco “de maneira cinéfila”: o discurso do personagem é o discurso do filme? Porque não necessariamente se trata da mesma coisa.

Por exemplo, meu colega Clóvis Roberto e eu há pouco conversávamos sobre Sete Noivas para Sete Irmãos (1954). Ora, os sete irmãos do filme são nitidamente machistas: são homens selvagens, criados sozinhos quase isolados da civilização. Esta civilização está representada na mulher, na primeira das sete noivas, Millie (Jane Powell). É ela que dá a eles um banho literal e de educação.

Mesmo assim, instigados pelo mais velho dos irmãos, que conta a história do rapto das sabinas na Roma Antiga, eles sequestram as seis outras moças confiantes de que, com o tempo, como estão apaixonadas, elas acabarão aceitando.

Quando chegam de volta, é Millie que os faz ver o quão errados estavam, expulsando-os de casa e refugiando-se lá dentro com as moças. Então, embora o discurso do protagonista Adam (Howard Keel) dizia que o sequestro era a solução, ele não é endossado pelo filme.

Ou seja: o número "Sobbin' women", em que Adam convence os irmãos de buscar as garotas na marra, com toda dose de machismo inerente a isso, é o discurso dos personagens, mas é o discurso do filme? Ou a atitude de Millie de censurar a atitude é que é o discurso do filme?

Acontece o mesmo em diversos outros filmes. Por mais incômodo que uma fala assim seja, é preciso refletir se o filme está expondo para criticar esse discurso ou se está a favor.

 

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