terça, 19 de março de 2019

Roberto Cavalcanti
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Nossa missão

03 de março de 2019
Ler um texto enxuto, apenas com informações essenciais de forma a permitir compreensão rápida, ou se deliciar com uma matéria cheia de detalhes, impressões e perspectivas, ou seja, experimentar a literatura da vida real?

Sim, jornal e literatura sempre andaram juntinhos, o primeiro dando espaços e popularizando nomes que depois se transformaram em grandes escritores. Esses, brindando os leitores de jornais com seus talentos para contar fatos do dia a dia com visão e estilo sedutores.

Foram reportagens sobre o fenômeno e impactos da seca que inspiraram Euclides da Cunha, então da equipe do “O Estado de S. Paulo”, a escrever o famoso “Os Sertões”, no qual reconhece: “O sertanejo é, antes de tudo, um forte”.

Antes dele, nas redações era possível encontrar José de Alencar, Machado de Assis, Olavo Bilac... E depois, Oswaldo de Andrade, Clarice Lispector, Carlos Drummond de Andrade, Luiz Fernando Veríssimo...

O Correio da Paraíba nasceu pelas mãos de um imortal, Afonso Pereira, que inclusive presidiu a APL. Valorizava tanto o conhecimento que fundou mais de 100 escolas na Paraíba, entre elas o Unipê. Até sua morte, contribuiu para melhorar o jornal como integrante do Conselho de Notáveis.

Desde a circulação do primeiro exemplar, são 65 anos contando aos paraibanos, em estilos variados, fatos que impactam vidas e que depois estarão nos livros de história.

O texto com atitude do escritor Ascendino Leite, a leveza das crônicas de Luiz Augusto Crispim, F. Pereira Nóbrega, Gonzaga Rodrigues e Chico Pereira, as análises independentes e irrespondíveis de Sitônio Pinto, Severino Ramos e Rubens Nóbrega, a graciosidade de Abelardo Jurema, e as críticas fundamentadas de Carlos Aranha, para destacar apenas alguns dos profissionais que transformaram o Correio da Paraíba em o favorito dos paraibanos ainda quando tínhamos concorrência.

A “revolução digital” e o surgimento da rede mundial de computadores, nos anos 90, mudou completamente nosso estilo de vida. A forma como nos comunicamos, como fazemos negócios, estudamos, garantimos nosso lazer... e o jornalismo.

O que não mudou no Correio da Paraíba foi o compromisso de fazer jornal valorizando nossa língua, ou seja, oferecendo textos para quem tem pressa, mas também para quem aprecia detalhes que permitem que se transforme em espectador do fato, como só os bons escritores conseguem.

Em ambos os casos, fazer o leitor pensar, garantir informações para que possa se posicionar, inclusive na livraria, onde pode escolher um livro encorajado pela crítica que leu no jornal.

A revolução digital estimulou o imediatismo de modo que muitos já não escrevem sequer as palavras por inteiro – “você” virou “vc”, “abraço” foi reduzido a “abs”, assim como “ncc” significa “não concordo”.

O jornal, ao contrário, continua sua parceria com a literatura para valorizar o idioma.

É com muito esforço que os impressos são feitos. A nossa missão é garantir que por trás da aferição de custo, de rentabilidade ou não, esteja a responsabilidade de oferecer textos com toda a riqueza do idioma e conteúdo que permita a cada um exercer sua cidadania.

O hábito de leitura é consequência do conteúdo, da forma, mas também da parte física, do tato (manuseio do papel), do cheiro, do visual amplo, seja do jornal ou de um livro que mantemos à mão, com um marcador que possibilita a retomada da leitura e o mergulho em um universo muito especial.

Reduzir tudo apenas ao digital é jogar essa história no lixo. Nossa missão é preservá-lo, afinal o primeiro relato da historia é feito no jornal.

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